Manuel Veiga

Pela sede se aprende a água

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Há alguns anos a esta parte, surgiram em Lisboa, em algumas estações do Metropolitano espaços de venda, onde os livros se derramam numa espécie de bric-à-brac horizontal, como se um capricho invisível tivesse apeado a imponência majestosa das velhas livrarias e a Biblioteca de Babel fosse, já não a infinita cornucópia labiríntica de que fala Borges, mas antes a rasoira implacável do deus-consumo, que tudo expele e degrada. Até os livros…

No entanto, nesses espaços de reciclagem, por entre restos e lixo editorial, descobre-se, por vezes, uma pérola ou outra, que como caçador de tesoiros me gratifica e conforta, breves que sejam os momentos…

Na sequência de uma dessas incursões colhi um singelo apontamento do quotidiano, que passo a narrar, um quase-nada, um pequeno detalhe tão denso de significado que, como breve centelha de esperança, ilumina a vida e preserva intacto o futuro. Pelo menos perante meus olhos, nunca cansados de deslumbramento e de surpresa…

Ora vejam…

Foi uma tarde de Domingo, pelas 16 horas da tarde. O centro comercial regurgitava. Massas humanas atropelavam-se numa moleza de autómatos, nas escadas rolantes e nos espaçosos corredores, espreitando as vitrinas e mastigando a angústia e o vazio. Crianças pela mão, exigentes nas solicitações, que as coloridas promessas, ali à mão, se ofereciam nas lojas e no esplendor dos enfeites…

E os pais, sabe-se lá qual com que mágoa: “Não pode ser, não pode ser…” – puxando pelas crianças lacrimosas, num gesto de impaciência mal contida…

Rumei, pois, nas minhas deambulações. E, em breves instantes, deparei-me com um desses espaços de venda de livros, onde entrei, não sei bem se para aplacar a angústia da tarde, se arrastado pelo hábito. Tive sorte. Dos escombros em saldo, por entre publicações de erotismo de pacotilha e outras esotéricas com promessas de felicidade futura, veio parar-me às mãos o volume que me faltava da obra de um dos grandes vultos da cultura europeia do século XX.

Dei o dinheiro (cinco euros) por bem empregue. E, saboreando a minha descoberta, dirigi-me a caixa. À minha frente, na fila de pagamento, o momentâneo prodígio. Um jovem, com menos de trinta anos, manifestamente de formação académica superior, de ténis gastos e roupa poluída mas de bom gosto, rosto marcado e expressivo, olhar firme e magoado surgiu, perante no meu espírito inquiridor, como um digno exemplo da geração dos € 500 euros, não sei se no desemprego, se aguardando a oportunidade de emigrar.

Insisti em olhar, o que manifestamente o incomodou. Mas então a minha curiosidade já se deslocara. O centro agora era a doçura de criança de três ou quatro anos, loira e encaracolada, que segurava pela mão. Falava pelos cotovelos a rapariguinha. E perante o meu mal contido desvelo, a menina estendeu-me um dos livros infantis do monte, que segurava com dificuldade: “O papá compra!…” – esclareceu-me em seu linguajar…

Vinte euros! – anotei no registo da máquina. O preço da felicidade de um pai jovem e desempregado. E de uma filhinha linda…

“Só pela sede se aprende a água…” – balbuciei intimamente, apaziguado e comovido.

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