Manuel Silva

O ELEVADOR SOCIAL

Durante o período do cavaquismo, em editorial publicado no jornal “Semanário”, extinto há muitos anos, o seu então director, Vitor Cunha Rego, comparava a sociedade portuguesa da época a uma escadaria que acabava num primeiro andar, cuja porta de entrada era estreita e por onde poucos poderiam passar, havendo muitos encontrões para o fazerem. À medida que se subia, a escadaria era cada vez mais apertada.

Foi o melhor retrato que vi do cavaquismo, até por ter sido feito por um liberal, com preocupações sociais, anteriormente maoista sem partido e socialista, o que voltaria a ser quando se desiludiu com o liberalismo.

Com o advento do cavaquismo, a vida das pessoas passou a melhorar. A economia cresceu significativamente, permitindo o aumento do poder de compra dos salários e pensões, o desemprego desceu, mas a igualdade de oportunidades não foi igual para todos, passe o pleonasmo. Alguns foram mais iguais que outros, como diria George Orwell.

Houve quem não aproveitasse algumas oportunidades? Certamente que sim, mas foram muitos mais a abusar das oportunidades, especialmente no que diz respeito a fundos comunitários, que foram bem aproveitados numa percentagem pequena ou média, enquanto a maior parte serviu, por exemplo, na agricultura, para comprar jipes e carros de alta cilindrada, assim como noutros sectores onde não se verificou qualquer aplicação do dinheiro proveniente dos fundos, mas esse dinheiro veio da CEE e, posteriormente, da UE. A que bolsos foi parar? Quem se preocupou em fiscalizar e investigar a rota desse dinheiro? Tudo isto com a conivência, para não irmos mais além, de gente instalada na administração pública, a começar pelo topo. Está aqui a alegoria de Vitor Cunha Rego mencionada no início deste texto.

Quanto à honestidade de alguns ministros (ajudantes, como o então Primeiro gostava de afirmar) e secretários de estado (ajudantes dos ajudantes), está o caso SLN/BPN a comprová-la, bem como aos rumores que então circulavam, especialmente no circuito interno do PSD.

Pouco depois de criada a UE, Cavaco Silva afirmou receber Portugal 1 milhão de contos por dia. Durante o governo de António Guterres, já eram 2 milhões de contos diários. Se esse dinheiro fosse aplicado em políticas desenvolvimentistas, teríamos chegado à bancarrota, ou seríamos um país muito mais rico e menos desigual?

Tudo isto vem a propósito do discurso de João Miguel Tavares nas comemorações do 10 de Junho. Falou sobre a igualdade de oportunidades para os portugueses e para os imigrantes, afirmando que também estes têm direito a subir na vida. Sobre este assunto já toda a gente falou, nada dizendo de novo. Como liberal que é (Marcelo lá teve as suas razões para o convidar) não mencionou o carácter regulador e fiscalizador do Estado, sem o qual está aberto o caminho à corrupção, ao nepotismo e ao compadrio. Só assim teremos uma sociedade mais justa e equilibrada, caso contrário, voltaremos à escadaria apertada à medida que se sobe e, na porta do andar de cima, haverá encontrões entre tubarões da alta finança e do capitalismo sem escrúpulos para abocanhar as maiores fatias do bolo situado no interior do andar.

Cavaco Silva também falava no “Portugal de sucesso”, mas nunca disse que tal sucesso deveria ser obtido com mérito e honestidade, nem para tal criou condições. Por isso, houve sucesso a qualquer preço para alguns, que, além de corromperem e utilizarem responsáveis políticos, levaram mais tarde bancos à falência, vivem no luxo e não têm nada ou quase nada registado em seu nome.

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