Manuel Silva
A ALA DIREITA DO PSD ESTÁ DE PARABENS
Antes da votação da reposição integral do tempo de serviço dos professores na Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, que contou com os votos favoráveis de todos os partidos, à excepção do PS, as sondagens atribuíam 31/32% ao PSD, com menos cerca de 2% ou 2,5% que os socialistas.
António Costa ameaçou com a demissão de primeiro-ministro, caso o diploma fosse aprovado em plenário, o que não viria a acontecer, dado o recuo do PSD e do CDS.
No entanto, António Costa ostentara a imagem de rigor nas contas públicas, que foi posta em causa relativamente a Rui Rio, que veio dizer dever aquela reposição estar sujeita à cláusula do crescimento económico, daí o recuo do PSD e também do CDS.
Quando foi aprovada a primeira votação, Rui Rio disse desconhecer o respectivo texto. Ou seja, os deputados do PSD que fazem parte da Comissão Parlamentar de Educação e Ciência votaram conscientemente, sabendo não ser essa a posição do Presidente e restante direcção do partido, com um objectivo claro: destruir a imagem de rigor nas contas públicas e de honestidade de Rui Rio, o que conseguiram.
Porquê aquela atitude dos ditos deputados do PSD? Porque queriam e conseguiram a derrota do seu partido nas eleições do passado dia 26 de Maio, sabendo que nas próximas legislativas a maioria do actual grupo parlamentar, escolhido por Passos Coelho, vai ser varrida, após ter sabotado constantemente a acção de Rio e dos órgãos dirigentes sociais-democratas. Não são gente de confiança, nem acreditam na social-democracia, mas na alt-right, elogiando alguns deles Donald Trump e Bolsonaro.
Estão pois de parabens aqueles senhores e senhoras, que têm primado pela mediocridade, para não lhe chamar coisa pior, nas intervenções que fazem na A.R., pois o PSD não passou dos 30%, como apontavam as sondagens menos de um mês antes das eleições, mas obteve apenas 22% (menos 11% que o PS), a pior derrota de sempre.
A votação dos deputados do PSD na Comissão Parlamentar foi apenas um dos factores desta estrondosa derrota. Luis Montenegro e Marco António Costa, quando se deslocaram a S. Pedro do Sul, o primeiro para assistir à posse da nova Comissão Política de Secção, o segundo para debater a descentralização administrativa, falaram da acção do governo Passos-Portas em contraposição ao governo de António Costa. Sobre o futuro nada disseram. Mais: afirmaram ter o PSD ganho as eleições legislativas de 2015, mas perderam a maioria. 60% dos portugueses mostrou-lhes o cartão vermelho, tendo, em consequência, surgido a geringonça. No entanto, não se referiram às eleições autárquicas de 2017, nas quais o PSD sofreu uma derrota tão ou maior que esta. Nos grandes centros urbanos ficou ao nível do PCP. Provavelmente, aprenderam a apagar factos da História com o seu chefe Passos Coelho, o qual não terá esquecido o que aprendeu naquele partido e na sua organização estudantil, a UEC, quando por lá passou…
O definhamento eleitoral do PSD começou com Passos Coelho, como mostra a sua sucessiva descida desde as autárquicas de 2013. O PSD descaracterizou-se política e ideologicamente, passando a ser um partido de direita conservadora e deixando de ser o partido social-democrata, central, reformista, popular e inter-classista que Sá Carneiro e demais companheiros fundaram em 1974. Deixou também de ser um grande partido nacional para se tornar num partido rural quando, hoje, as eleições se ganham nos grandes centros urbanos, pois o interior encontra-se cada vez mais abandonado e esquecido, mal de que se queixavam os alentejanos no tempo da ditadura.
Quando o PSD, sob a liderança de Rui Rio, voltou a enveredar por este caminho, os seus oponentes tudo fizeram para o sabotar, com o resultado que está à vista. No entanto, nem tudo está perdido. Nas eleições legislativas de Outubro, a abstenção será muito menor. Se o PSD fizer uma oposição mais acutilante, mostrar que continuamos em austeridade disfarçada e que a outra face do défice de 0,5% é a degradação dos serviços públicos, especialmente na saúde, bem como apresentar um programa eleitoral, virado para a criação de riqueza, baixando para tal os impostos, apostando na formação profissional e nas exportações e que aponte para reformas estruturais na educação, na segurança social, na saúde e, muito especialmente na várias vezes adiada reforma do Estado, poderá obter um resultado melhor e barrar o passo à alt-right acoitada no partido.
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