Manuel Silva
NÃO VENHAS TARDE

Há muitas décadas, surgiu uma canção interpretada por Carlos Ramos, intitulada “Não venhas tarde”, que ainda hoje se ouve na rádio.
Aquela canção adapta-se a intervenções recentes do primeiro-ministro, António Costa, e do carrasco de Portugal e da Grécia, Wolfgang Schäuble, ex-ministro das Finanças da Alemanha.
António Costa, em entrevista recente ao jornal “Público”, disse que “o euro foi um bónus concedido pela UE à Alemanha”. Só agora é que chega a essa conclusão? O governo socialista de António Guterres, de que fez parte, e negociou a entrada de Portugal no euro, não se apercebeu disso na altura? O próprio Guterres disse quando “euro” foi considerada a designação da nova moeda única europeia: “euro, tu és euro e sobre ti será edificada a união europeia”.
O euro passou a ter um valor idêntico ao do antigo marco alemão, perdendo todos os outros países da moeda única, cujas antigas moedas valorizaram consideravelmente face à nova moeda, competitividade relativamente à locomotiva europeia (Alemanha). Em Portugal, a valorização foi de cerca de 200%. Está aqui a principal explicação para o aumento das desigualdades entre os países mais ricos e os países mais pobres, para não falar no mesmo aumento dentro de países pobres e ricos. Abençoado liberalismo económico! Lá dizia um dos seus teóricos, o austríaco Hayek: “a justiça social não é possível, nem desejável”.
Mas não é só o PS que está comprometido com esta política. O PSD e o CDS também estão. Cavaco Silva foi um dos autores do Tratado de Maastrich, cujas regras, de tão apertadas, só têm prejudicado o crescimento económico e a justiça social, tão detestada pelos neo-liberais de hoje como pelo seu ideólogo já desaparecido, Hayek.
Quando se deram os primeiros passos para a criação da União Europeia e do euro, Cavaco Silva e o seu governo acabaram com a maior parte da agricultura, a indústria pesqueira, boa parte da indústria pesada, a pesca, passando o nosso país a importar esses produtos dos países mais ricos, provocando grande endividamento externo.
Após a entrada em vigor da moeda única, o crescimento médio europeu passou a ser menor, perdendo competitividade face aos EUA, Canadá, China e vários países emergentes.
Wolfgang Schäuble afirmou, há pouco tempo, doer-lhe as consequências das políticas austericidas aquando da crise das dívidas soberanas, pois havia políticas alternativas. Então defensores da TINA e do governo troika-Passos-Portas, após aquela frase do antigo ministro das Finanças alemão, ainda vão continuar a dizer não haver alternativa às vossas políticas?
Agora, Costa e Shäuble vêm tarde. Para o bem e para o mal, temos de suportar o euro. Se o mesmo acabasse seria o caos. Quanto à política aplicada durante a crise das dívidas soberanas, o mal já está feito.
Esperamos que o parlamento europeu a eleger brevemente e as outras instituições comunitárias mudem de rumo, preocupando-se mais com as assimetrias sociais, o combate à pobreza e o respeito pela soberania de cada país dentro da soberania partilhada. Neste último aspecto, temos assistido a uma soberania limitada, expressão cara a Brejnev quando dirigia a defunta URSS, a fim de o seu país dominar e controlar os restantes países do Pacto de Varsóvia e do COMECOM.
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