Manuel Silva

ATÉ SEMPRE, ARNALDO MATOS

Encontro-me a escrever este artigo no fim do dia em que faleceu Arnaldo Matos, o principal dos fundadores do MRPP e seu secretário-geral desde o dia em que o movimento foi fundado (18 de Setembro de 1970).

Como muitos adolescentes e jovens da minha geração, a do 25 de Abril, também eu me liguei ao MRPP, segui os seus ensinamentos e, muito especialmente, de Arnaldo Matos. A propósito, hoje, toda a comunicação social se lhe referia como “o grande educador da classe operária”. Ele foi sempre contra o culto da personalidade. Os cartazes e slogans que mencionavam aquele cognome foram uma invenção maquiavélica de Saldanha Sanches.

Quando Arnaldo Matos e mais de 400 militantes e simpatizantes do MRPP foram presos em Maio de 1975 pelo COPCON, comandado por Otelo, José Luis Saldanha Sanches, que não foi detido, numa reunião do Comité Central propôs aquela palavra de ordem, aprovada pelos demais membros da cúpula do partido. A intenção de Saldanha Sanches era ridicularizar Arnaldo Matos, pois como o seu curto futuro no partido demonstrou, aspirava a derrubar aquele e ser secretário-geral, falhando os seus intentos e sendo poucos meses depois expulso do MRPP, acusado de ser o chefe “da linha negra anti-partido”.

Após a saída do secretário-geral da cadeia nunca mais se viu ou ouviu tal slogan, por imposição do visado.

Na mensagem de condolências que o Presidente da República enviou à família de Arnaldo Matos, além de reconhecer o seu papel como enriquecedor do debate democrático, afirmava que “foi um lutador pela liberdade e a justiça social, estando sempre ao lado dos mais desfavorecidos”. Era assim que eu via, na altura, o MRPP e o seu secretário-geral, pessoa de uma enorme afabilidade e simpatia. Esse foi um dos motivos que me levou a aderir ao partido, o outro motivo foi ser filho e neto de operários, sabendo como tinham sido explorados antes do 25 de Abril. Por tudo isto, acreditava na “sociedade sem classes, construída por todos os trabalhadores sob a direcção da classe operária e da sua vanguarda”, o MRPP e, mais tarde o PCTP/MRPP.

Com 15/16 anos, arrisquei muitas vezes a liberdade e até a própria vida. Nessa altura, camaradas meus foram baleados, como João Camacho, recentemente falecido, ou Arnaldo Figueira, com quem fiz trabalho político quando era secretário da Organização Regional das Beiras Interiores, cuja sede era na Guarda, e também responsável pela organização distrital de Viseu no ano de 1980. Alexandrino de Sousa, dirigente da Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (FEML), a que também pertenci, foi assassinado por afogamento, no Tejo, pela UDP.

Passados os anos de brasa, muitos militantes e simpatizantes deixaram o partido, porque não tomou o poder. Esta gente andou no MRPP, porque era moda entre a juventude. Como não era o meu caso, pois tinha uma forte e sólida consciência política, mantive-me na luta. Posteriormente concluí que havia outros meios de lutar pela justiça social pacificamente e dentro da democracia pluralista, que até aí considerava de “burguesa”, ou seja, segui um caminho diferente do caminho de Arnaldo Matos, que se manteve comunista até à morte.

Posteriormente, nada me moveu contra Arnaldo Matos. Quando saí do partido, já ele se havia demitido de secretário-geral e de membro do Comité Central. No meu último encontro com o meu controleiro, numa república, em Coimbra, o mesmo disse-me que havia sido considerado como inimigo do partido pelo Comité Central, do qual faziam parte Garcia Pereira, Carlos Paisana, Leopoldo Mesquita, Luis Franco e José Machado, nada tendo o Arnaldo, “o camarada”, como era tratado no partido, a ver com o assunto.

Era um homem dotado de rara inteligência e eloquência. Independentemente de se concordar com as suas ideias, faço minhas as palavras atrás referidas de Marcelo Rebelo de Sousa, colega de faculdade de Arnaldo Matos, militando, nessa época, em campos diferentes.

Até sempre, Arnaldo.

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