Manuel Silva
Síria, o segundo Vietname dos EUA
Recentemente, foi dada ordem para as tropas dos EUA abandonarem a Síria. Donald Trump disse que o objectivo do seu país, derrotar o “Estado Islâmico”, estava conseguido.
É cómica a explicação do presidente americano. Não derrotou o “Estado Islâmico” e mentiu com quantos dentes tem na boca, pois o seu principal objectivo não era esse, mas derrotar Bashar Al Assad e entregar o poder a oposicionistas sírios que, tal como o governo deste país ou o ISIS, não são flores que se cheirem. Também eles são fundamentalistas islâmicos.
É um facto que o ISIS tem hoje menos força e implantação na Síria e não só. No entanto, prosseguem os seus atentados, matando às dezenas de pessoas de cada vez. Países europeus houve que ainda recentemente sentiram a barbaridade daquela organização terrorista.
RÚSSIA, 1 – EUA, 0
A América sofreu uma derrota, pois Assad, com o apoio de Putin, continua no poder e, pode dizer-se, esmagou a oposição apoiada por Trump. A Síria foi o segundo Vietname dos americanos. Tal como na primavera de 1975 o país do Tio Sam saiu do Vietname, do Cambodja e do Laos, zarpou agora da Síria, como se diz em linguagem popular, “com o rabo entre as pernas”.
Após a saída dos americanos da Indochina, aqueles países ficaram enfeudados à defunta URSS (Vietname reunificado e Laos) e à China de Mao Tsé Tung (Camboja). Neste último país cometeram-se as maiores atrocidades. Basta dizer que em 4 anos os kmers vermelhos de Pol Pot liquidaram um quarto da população cambodjana. Nem crianças escapavam à prisão e ao internamento em campos de concentração, onde pessoas famintas chegaram a trabalhar 20 horas seguidas, morrendo às centenas de milhares por inanição.
A propósito de Pol Pot, descobri na net uma carta endereçada, em finais de 1978, por um tal Heduino Gomes (Vilar), então secretário-geral do PCP(m-l), ao líder dos kmers vermelhos em tom fraternal, enaltecendo a sua liderança e felicitando o povo do Kampuchea democrático (?!) pelas “suas conquistas e a felicidade que vivia na construção da sociedade socialista, rumo ao comunismo”. Nesta altura, já eram conhecidas as atrocidades do “espírito do mal”, como chamou João Carlos Silva, no “Público”, a Pol Pot, quando este sanguinário morreu.
Poucos meses depois, no início de 1979, Pol Pot e a sua clique caíam e fugiam perante a invasão vietnamita. Não foi mais possível mentir sobre o regime derrubado do “Kampuchea Democrático”.
Passados 40 anos, Heduino Gomes milita no PSD, não se identificando minimamente com o ideário deste partido, pois afirma ser Salazar “o maior dos portugueses”, chama traidores aos desertores da guerra colonial, quando ele também o foi, refugiando-se na França e, mais tarde, na Bélgica, voltou a ser católico, mas radical. Ataca despudoradamente o Papa Francisco, defende o catolicismo ultra-tradicionalista, criticando o Concílio Vaticano II. Elogia Trump. Disse na minha frente que as mulheres não deviam estar na política, nem trabalhar, mas ficar em casa a “cuidar dos maridos e dos filhos”. E, basta de gastar cera, perdão, palavras, com tal indivíduo, hoje voltado ao ostracismo que sempre mereceu, pois já nos tempos do “marxismo-leninismo” era um charlatão daquela ideologia.
Voltando à saída do exército americano da Síria, há que recordar que a política externa dos EUA para o Médio Oriente tem sido um desastre. Apoiaram a Al Qaeda e Bin Laden no Afeganistão para correr com os soviéticos, que tiveram aqui o seu Vietname. Estiveram ao lado do Iraque e de Saddam Hussein na guerra contra o Irão, à volta de 40 anos, tendo fechado os olhos ao gaseamento e morte de muitos milhares de curdos por ordem do ditador de Bagdad. Viram-se os agradecimentos dos seus então aliados…
Em 1975, enquanto os americanos recuavam, os soviéticos avançavam, colocando também sob a sua influência as antigas colónias portuguesas. Foi esta a única vitória do PCP e de Álvaro Cunhal naqueles anos turbulentos.
Presentemente, na Síria, a América sai derrotada e a Rússia consolida a sua posição. Há, no entanto, uma diferença. Naquele tempo, os EUA eram governados por gente de bom senso. Hoje têm à sua frente um presidente cujas faculdades mentais se põem em causa. Também naquela época os americanos prezavam os seus aliados, especialmente os países da NATO. Trump despreza os valores do seu país de defesa da democracia, da liberdade e dos direitos humanos, bem como os países aliados, sendo amigo dos piores ditadores do nosso tempo.
O mundo está mesmo perigoso, pois Trump é o homem mais poderoso do planeta.
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