Manuel Silva

Quem faz a cama à extrema-direita?

Quando a miséria entra pela porta, a vergonha sai pela janela (ditado popular)

Marcelo Rebelo de Sousa, que é de direita, disse um dia ser “a direita portuguesa a mais estúpida que há”. A sua afirmação só pode pecar por defeito, nunca por excesso. No entanto, há pessoas na direita nacional que não são nada estúpidas. È o caso do intelectual Henrique Raposo, colaborador semanal do “Expresso”, que leio sempre com prazer e atenção.

Henrique Raposo afirma-se de direita e liberal-conservador. Numa das suas últimas crónicas publicadas no “Expresso” afirmava que com o avanço da extrema-direita no mundo inteiro, com presidentes como Duterte, nas Filipinas, Trump, nos EUA, Bolsonaro, no Brasil, com o que se passa na Polónia, na Hungria, Bulgária, Roménia ou Malta (estes três últimos países governados por partidos socialistas, é bom não esquecer), a democracia e os direitos humanos são constantemente postos em causa também na Europa, incluindo em nações com bom nível de vida.

Mais afirmou que dentro de 20 anos será de esquerda, bem como a actual direita democrática, dado o desaparecimento dos partidos comunistas e a cada vez maior insignificância dos partidos da Internacional Socialista.

Seguindo a profecia de Henrique Raposo, partidos como o PSD, que Rui Rio afirma ser de centro, social-democrata, não ser liberal nem socialista, constituirão a esquerda revolucionária ou extrema-esquerda. Aliás, o PSD tem nas suas fileiras muitos e muitas militantes que pertenceram à extrema-esquerda mais forte de toda a Europa capitalista na segunda metade dos anos 70 do século XX, especialmente vindos do MRPP e outras organizações maoistas.

Henrique Raposo não diz que a própria direita democrática também está a perder força eleitoral a favor da direita reaccionária. Foi assim no Brasil e no Partido Republicano americano e assim é na Europa Ocidental.

Porque se chegou a este ponto, fazendo lembrar os anos entre as duas grandes guerras no século passado?

No chamado terceiro mundo, a globalização que aumentou as desigualdades sociais, onde melhorou a vida dos pobres os ricos ficaram muito mais ricos e, em muitos países, os ricos ficaram mais ricos e os pobres na miséria. Razão tinha Vitor Cunha Rego, já desaparecido, quando afirmava destinar-se a globalização a beneficiar 500 multinacionais. O tempo está a dar-lhe razão. Fazem cá falta, hoje, visionários como ele.

Como diz um velho ditado, “quando a miséria entra pela porta, a vergonha sai pela janela”. A pobreza e miséria no chamado terceiro mundo têm provocado um forte aumento da criminalidade. A insegurança resultante destes factores faz a cama aos homens fortes, normalmente brutos e ignorantes.

Na América, as ligações de Hillary Clinton e dos democratas a Wall Street estão na origem da vitória de Trump nas eleições presidenciais de 2016. Por outro lado, os lucros das empresas americanas aumentavam muito e os salários mantinham-se “estáveis”…

Na Europa Ocidental, as políticas aplicadas desde a crise iniciada em 2008 pela direita democrática, de igual modo aumentaram as desigualdades, devido também à famigerada globalização. Muitos patrões dizem aos operários e demais trabalhadores: “se querem ganhar mais, mudo a fábrica para outro país” – onde se trabalha 12 e 14 horas diárias, não há direitos sociais, especialmente o direito à greve. Na China, por exemplo, como diz Miguel Sousa Tavares, une-se o pior do comunismo e do capitalismo.

A crise das dívidas soberanas empobreceu, humilhou países como Portugal e a Grécia. Por outro lado, na actual UE os países ricos dominam os pobres. De que vale mudar de políticas em eleições nacionais se os eleitos têm que aplicar políticas impostas pelos burocratas de Bruxelas que ninguém elegeu? Se os parlamentos nacionais, numa ofensa à soberania de cada país, estão submetidos às directivas do Parlamento Europeu?

Quem pôs em prática estas políticas, que despertaram nacionalismos radicais, foi a direita liberal-conservadora a que pertence Henrique Raposo, agrupada no Partido Popular Europeu (PPE), que inclui o PSD e o CDS.

A alternativa à extrema-direita não reside no PPE, que também começa a entrar em crise. Veja-se o exemplo de Angela Merkel. A alternativa residirá em partidos centrais, de centro-esquerda e centro-direita, nem liberais nem socialistas, como diz Rui Rio, que pratiquem uma política idêntica à que efectuaram os partidos sociais-democratas e democratas-cristãos até há não muito tempo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *