Manuel Silva
A geringonça do Presidente da República

Na edição do passado dia 1 de Setembro do jornal “Expresso” era noticiado que fonte da Presidência da República afirmava ser desejo de Marcelo Rebelo de Sousa ver, nas próximas eleições, a constituição de “uma geringonça de direita” como alternativa à actual geringonça constituída pelo PS, o PCP, o BE e os Verdes.
Como não houve qualquer desmentido de Belem, é presumível ser a notícia verdadeira e não uma fake news.
Aquela posição do P.R. é errada do ponto de vista institucional e do ponto de vista político.
O Presidente da República é um árbitro do sistema constitucional e político, logo enquanto estiver em funções deve despir a camisola partidária. A táctica e a estratégia dos partidos na luta política apenas cabe aos mesmos e não ao Chefe de Estado.
Marcelo defenderia uma frente de direita para combater uma frente de esquerda. Numa situação dessas, o centro – onde se ganham e perdem eleições – desapareceria, o que teria como consequência o aumento da abstenção ou, muito provavelmente a vitória do PS, com maioria absoluta, dada a moderação ultimamente verificada para os lados do Rato e as afirmações do ministro das Finanças, Mário Centeno, que nada ficam a dever a Vitor Gaspar ou Schäuble.
O PSD não é um partido de direita, mas um partido social-democrata, reformista, inter-classista e central, que alberga todo um eleitorado que vai do centro-direita ao centro-esquerda. Sá Carneiro e Cavaco Silva conquistaram maiorias para o PSD, o primeiro em aliança com o CDS, o PPM e os Reformadores, dissidentes do PS, porque ocuparam o espaço de centro-centro-esquerda. Por isso, não deverá formar, como é vontade de Marcelo, um bloco de direita com o CDS e a Aliança de Santana Lopes. Deve concorrer com o seu próprio programa, não se aliando àquelas forças conservadoras, retrógradas e populistas. Se o fizesse, António Costa e o Partido Socialista agradeceriam.
Conhecido que é o maquiavelismo do P.R., bem visível nas suas análises televisivas e em artigos publicados há muitos anos no “Expresso”, de que chegou a ser director, e no extinto “Semanário”, do qual era presidente do Conselho de Administração, onde criava factos para dos mesmos tirar proveito, colocam-se duas hipóteses: ou pretende mesmo a constituição de uma frente de direita, com a consequente descaracterização ideológica do PSD, como aconteceu durante a liderança de Passos Coelho, para manter Costa no poder e a derrota da “geringonça da direita” ser certa, afastando Rui Rio da liderança do PSD. Marcelo nunca viu Rio com bons olhos e, durante a última campanha para a liderança social-democrata, apenas recebeu Pedro Santana Lopes, ou quer mesmo um PSD ancorado à direita, vocação que nunca teve desde a sua fundação.
Uma ou outra de tais intenções só prejudicaria o partido de que o P. R. é militante. Como este líder e esta direcção sociais-democratas chegarão às próximas eleições regionais da Madeira, para o Parlamento Europeu e as legislativas, a vontade presidencial sairá frustrada.
A notícia publicada no “Expresso” do passado dia 1 não constitui qualquer surpresa. Marcelo Rebelo de Sousa, nos seus verdes anos, após o 25 de Abril, era da ala esquerda do PSD. Posteriormente virou à direita. Criou a “Nova Esperança”, um grupo de direita contra Mota Pinto e o governo do bloco central, nos anos 80 do século passado, com o CDS e Paulo Portas constituiu a Alternativa Democática (AD), uma coligação de direita detestada pela generalidade dos militantes e simpatizantes do PSD, a qual pouco tempo durou, levando à demissão de Marcelo da liderança do PSD.
Politicamente, Marcelo continua a ser o homem de direita que sempre foi desde que entrou na idade madura.
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