Manuel Silva
Que justiça social?
Durante a semana dedicada pelo PSD e pelo seu presidente, Rui Rio, à saúde, demonstrando que a mesma se tem degradado (o investimento no sector baixou 25% em 2017, segundo afirmação proferida pelo líder parlamentar social-democrata, Fernando Negrão, na A.R., que não foi desmentida), na Universidade Carlos III, em Madrid, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, dizia resultar o crescimento da economia portuguesa da conjugação do défice com a justiça social. Será assim mesmo?
O actual governo acabou com contribuições especiais criadas pelo governo Passos/Portas, aumentou o ordenado mínimo e as pensões mais pequenas. No entanto, os demais cidadãos continuam a ganhar o mesmo. Os funcionários públicos não são aumentados há 9 anos. Milhões de portugueses não vêem o seu rendimento aumentar. Muitos deles, antes pelo contrário. Este facto encaixa no conceito de justiça social de Marcelo?
O défice tem baixado significativamente. A dívida pública, nem por isso. No entanto, a baixa do défice deve-se, em grande parte, ao adiamento de pagamentos e à cativação de verbas, que têm posto em causa a saúde financeira de muitas empresas e o funcionamento dos serviços públicos, especialmente na saúde. No Hospital de S. João, no Porto, há crianças a fazer tratamentos ao cancro num ambiente perfeitamente degradado. É caso para dizer como o poeta Augusto Gil: “mas as crianças, senhor (Adalberto), porque lhes dais tanta dor? Este facto encaixa no conceito de justiça social de Marcelo?
Marcelo, como se diz na minha terra, “é como o bacalhau frito, aparece em todo o lado”. Porque ainda não foi visitar aquelas crianças, levando-lhes o afecto que tanto traz na boca? Beijar crianças é menos mediático que beijar mulheres novas ou idosas?
Não foi por acaso que a afirmação do Presidente em Madrid foi feita na semana dedicada à saúde, na qual o PSD provou estar em causa neste sector e não só o conceito de Estado social. A propósito, porque batem leve, levemente – outra expressão de Augusto Gil – o PCP, o BE e Os Verdes no governo, vendo degradar-se os serviços públicos, com manifesto prejuízo para os mais pobres? Fariam o mesmo com um governo social-democrata?
Recentemente efectuei um exame médico num consultório privado, que me custou 200,00 euros, porque se fosse realizado num hospital público, demoraria 2 ou 3 anos. Uma pessoa que não possa comprar um seguro ou não possua um subsistema de saúde, quando fosse chamada, provavelmente estaria morta. Mas para o PR e o governo, está a praticar-se a justiça social.
A economia tem crescido, mas só 4 países da UE crescem menos que nós. Grande crescimento! De reformas estruturais que façam a nossa economia dar o salto qualitativo não fala o Presidente. Terá tanto receio das mesmas como o PS?
Quando o governo está na “mó de baixo”, como aconteceu aquando dos incêndios do ano passado, é criticado por Marcelo, o qual, agora, que o PS recuperou, estando, nas sondagens, à beira da maioria absoluta, encosta-se ao executivo. Em alguma coisa tenho que dar razão a Passos Coelho. Estava certo quando insinuou ser Marcelo um cata-vento mediático, o que, aliás, se verificava nas suas análises televisivas dominicais, fundamentais para chegar onde chegou, levado ao colo pela comunicação social, pois era um dos seus.
Recuando no tempo, aos anos 70 e 80 do século passado, as análises de Marcelo Rebelo de Sousa, no “Expresso” e no “Semanário” caracterizavam-se por criar factos políticos, tirando partido dos mesmos, ou seja, foi um inventor de “factos alternativos” antes de Trump e quem o rodeia.
Lembro-me bem dele no PSD. Era pessoa em quem pouca gente confiava. A sua passagem pela liderança do partido foi um fiasco de todo o tamanho.
Rui Rio não está nem poderia estar à espera da ajuda do P.R. para chegar a primeiro-ministro, mas, cada dia que passa se vê não ser essa a vontade do inquilino de Belém. Não foi por acaso que mal Santana Lopes anunciou a sua candidatura à liderança social-democrata, foi recebido na presidência. A candidatura de Rui Rio foi ignorada por aquelas bandas. É que o “abrangente” Marcelo continua a ser de direita, como aliás sempre foi no PSD.
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