Manuel Silva

A dúvida é um dos nomes da inteligência

 

A frase que titula este artigo pertence a Jorge Luis Borges, escritor argentino. O filósofo Descartes, no século XVII, defendia a dúvida como método para chegar ao conhecimento, chamando-lhe “dúvida metódica”, em oposição à dúvida céptica. Duas das suas frases, “penso, logo existo” e “não acreditar sem antes duvidar” marcam o início da filosofia racionalista, da crença no uso da Razão, a qual, como afirmativa numa das suas quadras o nosso poeta popular algarvio António Aleixo, “mesmo vencida, não deixa de ser razão”.

Recentemente, um antigo espião russo que se passou para o lado da Inglaterra, onde vive exilado, foi alvo de tentativa de envenenamento, bem como uma sua filha. Logo o governo russo foi acusado pela primeira-ministra inglesa e o seu grotesco ministro dos negócios estrangeiros, Boris Johnson, de ser o mandante daquele crime.

Sem a apresentação de qualquer prova, a maioria dos países ocidentais expulsou vários diplomatas russos, estando criado novamente um clima idêntico ao da guerra fria nas relações internacionais. O P.R., num gesto de cavalheirismo e afecto para com Theresa May, mandou chamar o embaixador de Portugal na Rússia. O governo solidarizou-se com o “aliado” britânico que virou costas à UE. O PSD defendeu a expulsão de diplomatas russos.

Mas onde estão as provas de que o crime foi praticado a mando de Moscovo? O governo inglês começou por dizer que o produto químico letal utilizado na tentativa de assassinato  do ex-espião russo e da filha era apenas fabricado no país das vítimas. Posteriormente, um destacado cientista inglês afirmou não ser conhecida a origem daquele produto. Em quem acreditar mais? Num governo (britânico) entregue a cidadãos demasiado comuns ou no cientista?

Este filme, já o vimos aquando da agressão dos EUA ao Iraque sem ordem da ONU. Bush, Asnar, Blair, a CIA, os serviços secretos ingleses e o então primeiro-ministro Durão Barroso, na posição de mordomo dos grandes do mundo, todos afirmaram terem provas da posse por Saddam Hussein de armas nucleares, que nunca foram mostradas. Entretanto, desencadeou-se uma guerra que matou 250 000 pessoas. E, como a verdade é como o azeite na água, vem sempre ao cimo, provou-se não existirem aquelas armas. Os principais responsáveis pelo ataque ao Iraque deveriam ter respondido e sido condenados no Tribunal Penal Internacional pelos crimes que cometeram com base numa mentira, mas a justiça deste Tribunal é a dos vencedores. Também já vimos mais este filme após a guerra desmembradora da ex-Jugoslávia…

Quando ocorre um crime desta natureza, a primeira pergunta a fazer é: a quem serviu o crime? Terá sido à Rússia, que libertou o espião em causa da prisão há muitos anos e o trocou por outros espiões seus? Se era assim tão incómodo, porquê só agora a tentativa de homicídio? Mas há alguém que ganhou politicamente com este crime: o governo inglês, que fez esquecer as dificuldades por que passa na sequência do brexit. No entanto, certezas quanto à autoria do atentado não existem. E não vamos entrar na tese da conspiração…

Se depois de todos estes factos e a inexistência de provas, os governantes e chefes de Estado ocidentais não têm dúvidas de que Putin e a Rússia estão por trás deste atentado, falta-lhes a inteligência, como diria Jorge Luis Borges, o que, aliás, já se tinha verificado em outras situações, especialmente durante a crise iniciada em 2008.

PS: Se a Catalunha se tornar independente, provavelmente ficará mais pobre, assim como Espanha. No entanto, em eleições livres e democráticas convocadas pelo governo espanhol, os independentistas saíram vencedores.

O governo espanhol deveria já antes daquelas eleições, mas especialmente agora, dialogar com Puigdemont e demais nacionalistas catalães e não prender representantes do povo, à boa maneira fascista, fazendo lembrar Franco, do qual o PP e Mariano Rajoy são herdeiros testamentários.

Puigdemont foi detido na Alemanha. A Justiça desde país negou a sua extradição para Espanha, onde seria preso. Felizmente, nesta UE cada vez mais a-democrática, os tribunais são independentes face ao poder político e colocam a lei à frente da “raison d’État”.

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