Manuel Silva

O Portugal abandonado e esquecido

Segundo uma reportagem publicada na edição do jornal “Expresso” do passado dia 24 de Fevereiro, que teve destaque de primeira página, há em Portugal 26 000 famílias a habitar ainda em barracas e em condições degradantes.

Na grande Lisboa e no grande Porto, existem “habitações” sem água nem electricidade. Nos arredores da capital os residentes de uma barraca improvisaram uma casa de banho na respectiva cozinha, não estando os dois compartimentos, se assim se podem chamar, separados por uma porta. Há pessoas em cujas camas chove. Esta é uma das faces do Portugal de finais da segunda década do século XXI.

Perto do final do cavaquismo, quando a economia e o nível médio de vida cresciam acentuadamente, sendo hábito dos governantes falar de Portugal como país de sucesso, o então Presidente da República Mário Soares fez uma visita às zonas pobres e degradadas de Portugal. Tal visita abalou muito a imagem do governo de então.

Seria bom que o actual Presidente da República fizesse uma viagem idêntica pelo país mostrando como ainda se vive e habita nos subúrbios dos grandes centros urbanos e que Lisboa não é apenas a baixa ou as Avenidas Novas, assim como o Porto não é só a ribeira, a Rua de Santa Catarina ou a Casa da Música, também lá existe muita pobreza e miséria. Finda a deslocação a estes locais, Marcelo Rebelo de Sousa poderia e deveria mostrar o envelhecimento e o abandono de inúmeras aldeias e até vilas do interior, onde já existem mais pessoas reformadas que a trabalhar e a descontar para a segurança social, como é o caso da aldeia onde vivo, Negrelos, situada a pouco mais de um quilómetro da sede do concelho de S. Pedro do Sul.

As suas visitas às áreas onde deflagraram os incêndios no ano passado já foram uma pequena amostra de como aí se vive, mas há que demonstrar de forma mais aprofundada a presente situação. Mais importante que distribuir beijos e selfies é levar ao conhecimento dos demais portugueses a situação crítica das regiões afastadas do litoral.

Já não é só o Alentejo que está queimado e esquecido, como dizem algumas canções de intervenção, é a maior parte de Portugal.

Quando Cavaco Silva era primeiro-ministro, o PS afixou muitos milhares de cartazes por todo o país com o slogan “as pessoas não são números”. Também  presentemente os números macro-económicos ocultam esta dura realidade social. Curiosamente, os aliados do PS na A.R. não se pronunciam sobre esta situação, principalmente sobre a chocante reportagem do “Expresso”. Se estivesse o PSD no governo calariam estes factos?

 

MORTE NA SÍRIA

Uma canção dos UHF do início dos anos 80 do século passado dizia, a propósito da guerra civil então a decorrer em El Salvador: “porque é que tu morres em El Salvador/onde é que isso fica, El Salvador?/ É neste mundo ou noutro pior? (…) celebrando promessas, jogando xadrez/ aliados, inimigos servem-se à vez”. Estes versos adaptam-se perfeitamente à actual guerra na Síria, onde morrem centenas de pessoas, incluindo velhos e crianças, diariamente, sendo os seus corpos carregados em camiões para valas comuns, além de muitos milhares que ficam sem casa e/ou estropiados.

A imagem de um pai a tirar o corpo do seu filho morto, ainda criança, de um camião, a abraçá-lo e beijá-lo por entre lágrimas, foi terrível. Fez lembrar a menina vietnamita, queimada com napalm lançado pelos americanos, a correr nua e a gritar, nos primeiros anos da década de 70. Muitos dos que na altura condenaram – e bem – o comportamento dos EUA na guerra do Vietname, justificam ou apoiam mesmo a carnificina que o ditador Assad, com o apoio da Rússia, está a efectuar na Síria.

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