Mário Pereira

Caminhos de Fátima

Ed657_CaminhoSantiagoO interesse dos municípios de Lafões e de outros, por este país fora, pelos Caminhos de Santiago é uma daquelas situações que exemplifica na perfeição o facto de os portugueses não serem capazes de ver o que têm à porta de casa e andarem sempre à procura de coisas exóticas.

Devo declarar que não tenho nada contra os caminhos de Santiago e que nunca fui a pé a Fátima e não está nos planos fazer essa viagem, mas enquanto automobilista já me cruzei em vários locais com peregrinos a caminho de Fátima e custa-me que ninguém se preocupe com os caminhos que os conduzem a Fátima.

Independentemente, da fé e dos motivos de cada um, faz dó ver grupos de pessoas a caminharem ao longo de estradas com muitíssimo trânsito e sem nenhuma proteção, com riscos para a própria vida, como já aconteceu em anos anteriores.

Isto é ainda mais estranho num país em que as pessoas se dizem católicas, quando já passaram quase 100 anos sobre as aparições de Fátima e essas peregrinações a pé a Fátima se tornaram um elemento importante na religiosidade dos portugueses.

Uma parte muito significativa dos portugueses já fez esta viagem e o número dos que a fazem não tende a diminuir, basta circular na Estrada Nacional 1 para o confirmar.

A explicação para este desinteresse por parte dos nossos autarcas  só poderá  ser explicado por uma dificuldade das nossas elites em lidar com os fenómenos genuinamente populares.

Há de facto uma visão que menoriza e desvaloriza os fenómenos populares considerando-os manifestação de formas rurais de vida ou próprios de pessoas sem cultura.

Os peregrinos de Fátima, que dizem os estereótipos são pobres e aldeões, mas que na verdade são oriundos de todos os grupos sociais, são considerados apenas merecedores do apoio da Cruz Vermelha para tratar as bolhas dos pés, mas só daqueles que vão para o dia 13 de maio.

Por oposição a esse estereótipo, surgiu a moda de realizar caminhadas pelos caminhos de Santiago e, como  que por encanto, surgiu até a possibilidade de utilizar fundos europeus para a recuperação dos antigos carreiros para estes caminheiros.

Acredito que é o preconceito negativo que marca os peregrinos que vão a Fátima, que faz com que não tenha sido feito nada para facilitar a sua viagem e aumentar as condições de segurança.

Se as autarquias valorizassem e respeitassem as pessoas que vemos a caminhar pelas estradas, sobretudo de maio a outubro, tenho a certeza que as câmaras de Águeda, Anadia,Mealhada, Coimbra, Condeixa ou Pombal já teriam construído percursos à maneira, com pontos de abastecimento de água, instalações sanitárias, bancos para descansar, etc…

É tempo de acabar com a indignidade a que são sujeitas as pessoas nas suas peregrinações a Fátima.

Os nossos municípios não são atravessados por peregrinos oriundos de outras regiões, mas por exemplo Tondela e Viseu já são. Nesta zona no mínimo poderia fazer-se o encaminhamento dos peregrinos pela Ecopista do Dão, com ganhos de qualidade para as pessoas e até para a Ecopista.

Nos concelhos de Lafões poderiam ser feitas algumas pequenas melhorias que facilitassem a orientação e a segurança das pessoas: placas indicativas, passeios em alguns pontos mais usados, passadeiras em pontos críticos, indicações para não circularem a pé em determinadas estradas com mais trânsito e bermas impróprias para caminhar, marcação de alguns atalhos que possam ser utilizados, integrando-os nas redes de percursos pedestres, etc…

Em 2017 será o centenário das aparições, acredite-se ou não, o facto é que há uma realidade que faz parte do nosso património e por isso uma boa forma de comemorar esse centenário seria apostar na criação de caminhos pedestres dignos.

Acredito que se fosse criada  e promovida uma boa rede de caminhos talvez começássemos a ver estrangeiros a fazerem os caminhos de Fátima, como vemos a fazerem os Caminhos de Santiago.Redação Gazeta da Beira

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