Manuel Silva
Rui Rio conservador?
Certa comunicação social “cool” e uma certa “esquerda” consideram o novo líder social-democrata, Rui Rio, conservador. Recordo que Rui Rio defendeu a despenalização do aborto aquando dos referendos realizados sobre tal matéria em 1998 e 2007, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, presentemente, a eutanásia, à semelhança dos partidos da esquerda parlamentar.
Então defender aquelas ideias ou recusar o rótulo de direita para o PSD, afirmando-o como um partido central e reformista, aberto à sociedade civil e à participação de independentes, é ser conservador?
Dirão alguns “mas na Câmara do Porto governou sempre em coligação com o CDS”. Fê-lo, porque o PSD, sozinho, dificilmente conseguiria derrotar o PS, Fernando Gomes e Pinto da Costa nas autárquicas de 2001, por outro lado, o CDS colaborou na autarquia com o parceiro social-democrata, contribuindo para a afirmação do Porto como cidade moderna, na qual foram resolvidos muitos problemas sociais “esquecidos” pelos antecessores socialistas.
Nos tempos que correm, dificilmente algum partido consegue governar sozinho com maioria. O mesmo se passa na generalidade dos países europeus. O PSD, como disse Rui Rio na abertura do seu congresso, a decorrer quando escrevo este texto, vai procurar ganhar todas as próximas eleições. Assim sendo e não obtendo maioria, podendo consegui-la coligado com o CDS, a fim de fazer as reformas que se propõe, tal não põe em causa a natureza social-democrata do partido. Recordo a AD, que não era uma frente de direita, mas um bloco reformista que ia da esquerda moderada à direita democrata-cristã. Falar de bloco central, como afirmou no discurso atrás mencionado Rui Rio, é “discutir o sexo dos anjos”. Acordos com o PS para reformas futuras, sim. Coligações com este partido, nunca. Aliás, o mesmo já escolheu os seus parceiros preferenciais, o PCP, os Verdes e o BE.
É acusado de não se interessar pela cultura, dado não ser um “mãos largas” na atribuição de subsídios a actividades que, por vezes, pouca gente vê. Aliás, vivemos num país onde existem boas peças, actores e dirigentes de teatro, mas também, como dizia há uns anos Vasco Pulido Valente, “onde duas pessoas a conversar a uma mesa já fazem teatro”.
Na cultura, o Estado deve cuidar e preservar o património, apoiar também financeiramente realizações de festivais ou concertos, mas evitar a subsidiodependência, a qual, prova a experiência, beneficia quem gravita na área do poder. Deverá, por outro lado, incentivar, pela via fiscal, o mecenato.
A indústria cultural mais forte do mundo é a norte-americana, porque existe um forte mecenato e não subsídios estatais.
Rio é conservador, em que consiste o progressismo? Na criminalização da homossexualidade, como acontecia em todos os regimes comunistas, e do aborto na URSS, no tempo de Estaline? Na expulsão de homossexuais das suas fileiras como fazia o PCP em outros tempos? No espancamento e assassinato de homossexuais, prostitutas e alcoólicos, considerados degenerados sociais, pelos maoistas do Sendero Luminoso no Perú? Porque é que o Bloco de Esquerda condena estes crimes quando praticados pela extrema-direita nazi e fascista e os cala relativamente aos senderistas? Será a costela maoista de alguns dos seus a falar mais alto?
Mais: ficamos a saber que ser “progressista” é defender ideologias falhadas e repudiadas pelos povos no mundo inteiro, em nome das quais foram liquidados 100 milhões de pessoas. Ah, ser “progressista” é dizer que à direita se assassina e à esquerda se liquida fisicamente.
Ser progressista – aí estamos de acordo – é defender aquele que é considerado o maior economista do século XX, Keynes, contra o neo-liberalismo. Keynes até dizia que em épocas de crise económica o Estado deve investir para sair da crise. Pois, mas, em épocas de “vacas gordas”, afirmava dever ser criada uma almofada financeira para o Estado assim proceder em tempos de “vacas magras”. Nunca diria: “comigo é chapa ganha, chapa distribui”.
A conversa já vai longa. Estamos esclarecidos quanto a conservadorismo e progressismo, segundo uma concepção “cool” e politicamente correcta…
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