Manuel Silva

Votar com a carteira

Numa reunião de militantes e autarcas do PSD dos concelhos do distrito de Viseu onde aquele partido havia sido derrotado nas autárquicas de 1989, realizada nas Termas de S. Pedro do Sul, o então presidente da distrital laranja,  já falecido, Luis Martins, após ter ouvido vários companheiros, entre os quais eu próprio, afirmar ter o partido registado uma derrota, a nível nacional, naquelas eleições, devido a “preocupar-se, no governo, demasiado com a economia – era primeiro-ministro Cavaco Silva – e pouco com a política”, afirmou: “meus senhores, só ganharemos as eleições legislativas se as pessoas meterem a mão ao bolso e disserem que têm mais dinheiro que no ano anterior. Se virem que têm menos dinheiro, perdemo-las”. Dois anos depois, o PSD e Cavaco Silva venciam as legislativas e reforçavam a anterior maioria.

É conhecida a frase que, em grande parte, esteve na origem da vitória de Bill Clinton nas presidenciais americanas de 1992, proferida num debate com George Bush (pai), então presidente dos EUA, “é a economia, estúpido”.

Mais recentemente, comentando os bons resultados do PS e de António Costa nas sondagens, após a quebra que registaram aquando dos incêndios do Verão e Outono passados, Marques Mendes afirmou votarem as pessoas com a carteira.

Nem sempre assim foi. Por exemplo, no ano de 1992, quando se previa a derrota do Partido Conservador e do então primeiro-ministro, John Major, nas legislativas britânicas então ocorridas, devido à derrapagem económica e aos efeitos que teve no emprego e no nível de vida dos britânicos, os mesmo renovaram a maioria absoluta. Cinco anos depois, após uma espectacular recuperação económica e uma situação de praticamente pleno emprego, Major e os conservadores são esmagados nas urnas por Tony Blair e o Partido Trabalhista. A propósito, é bom  que os socialistas que acusam Blair de ter governado “à direita” se lembrem que em toda a história britânica foi o único líder trabalhista a conseguir três maiorias absolutas consecutivas para o seu partido.

Actualmente, em várias partes do mundo e à primeira vista, as eleições e as sondagens apontam para que as pessoas votem mesmo com a carteira e não por motivos ideológicos.

No Brasil, se as eleições presidenciais fossem agora, o vencedor seria Lula, a crer nas sondagens, apesar de ter sido condenado pela justiça brasileira em mais de 12 anos de prisão. É, no entanto, curioso, como os tribunais brasileiros são tão céleres relativamente a Lula e tão vagarosos quanto ao presidente Temer e a grande maioria dos seus apoiantes no Congresso, suspeitos de corrupção…

Os brasileiros sabem que a classe política está cheia de corruptos, à direita e à esquerda. Lula, apesar de uma pesada condenação ainda não transitada em julgado, tirou muitos milhões de brasileiros da fome e da miséria e criou condições para a existência de uma classe média maioritária.

Nos EUA, apesar das imbecilidades e loucuras de Trump, a economia cresce consideravelmente. Os States atingiram uma situação de quase pleno emprego. Os salários, especialmente da classe média, têm subido. Estes factos aliados à inépcia e falta de liderança no Partido Democrático – chega-se a falar numa possível candidatura democrata de Oprah Winfrey, que não tem qualquer experiência política – poderão, segundo diversos analistas, conduzir a nova vitória do actual inquilino da Casa Branca em 2020, apesar da constante contestação a que tem estado sujeito.

A situação económica portuguesa, aparentemente, é boa: crescimento acentuado, queda do desemprego, melhoria das pensões e do salário mínimo, porque os outros salários vão marcando passo, défice mais baixo da democracia, mas não há bela sem senão. No presente ano, segundo as previsões do OGE, a economia crescerá menos. Para conseguir o actual défice, o governo tem procedido a cativações e adiamento de pagamentos que estão na origem da balbúrdia que grassa nos serviços públicos e das dificuldades vividas por várias empresas. Não é incorrecto afirmar vivermos uma austeridade escondida.

Os salários, à excepção do mínimo, estão quase na mesma. Porque não há elementos relativos ao poder de compra e ao aumento ou não das desigualdades sociais nos últimos 2 anos? A comunicação social, em vez de se preocupar com a oferta de bilhetes a um ministro para assistir a um jogo de futebol, deveria debruçar-se sobre tais questões e dar mais atenção à origem da falência de empresas importantes como a Triumph e a Ricon, que lançaram centenas de trabalhadores, especialmente mulheres, no desemprego.

Segundo dados do Banco de Portugal, o endividamento aos bancos é o maior da última década, sugerindo medidas que travem esta escalada, como o aumento das taxas de juro. A crise recente não serviu de grande lição.

Se o PSD pegar naqueles elementos, provar que “o rei vai nú” e apresentar soluções amigas do investimento produtivo como meio de melhorar a vida de nós todos, poderá vencer as eleições legislativas de 2019, precisamente porque estamos numa época em que se vota com a carteira.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.