Manuel Silva

Papa rodeado de sabotadores e hipócritas

Na última mensagem natalícia dirigida à Cúria Romana, o “governo do Vaticano”, o Papa Francisco considerou a mesma “um cancro que gera egoísmo e que se infiltra nos organismos eclesiásticos e nas pessoas que lá trabalham”. Mais afirmou terem os encarregados de levar à prática as reformas estruturais por si pretendidas “traído a confiança, ao deixarem-se corromper por causa da ambição e da vã glória” (…) quando são afastados, declaram-se erradamente mártires do sistema, em vez de admitirem que são traidores”.

Esta mensagem, tendo em conta a época em que  foi dirigida aos que são mais próximos do Papa, não podia ser mais dura, demonstrando estar o Sumo Pontífice rodeado de sabotadores que tentam impedir as alterações que pretende introduzir e a prossecução da denúncia da ”economia que mata”, consequência do neo-liberalismo.

Quantos responsáveis do Vaticano secundam as denúncias das injustiças verberadas pelo Papa? Escândalos financeiros na cúpula da Igreja Católica não faltam desde há décadas. Recentemente surgiram denúncias sobre a existência de um lobby gay e prática de orgias homossexuais no mesmo Vaticano, depois de se provar serem vários bispos e cardeais pedófilos. Mas os outros, se tiverem relações sexuais antes ou fora do casamento, forem homossexuais, lésbicas, ou até praticarem a masturbação, incorrem em graves pecados…

A mensagem  natalícia papal em causa pouco eco teve na comunicação social mundial. Porquê? Porque, na sua maioria, os jornais, as revistas, as televisões, as rádios do mundo inteiro  estão nas mãos do alto capitalismo, cuja prática tem sido denunciada por Francisco.

Se a direita económica, lá fora e cá dentro, não gosta do Papa como não gostavam os senhores do Império Romano, seus lacaios e sequazes, de Cristo, a direita política não lhe fica atrás. Não tem é coragem para atacar abertamente a doutrina do Sumo Pontífice. Em contrapartida, vários analistas do CDS e deste PSD, que se espera ter passado à história sem honra nem brilho, elogiam abertamente o louco Trump. Até hoje, nem Passos, nem Cristas, nem Portas tiveram uma palavra de elogio para Francisco.

A “alt right” (direita dura) portuguesa ataca desbragadamente e calunia o Papa, destacando-se em tal actividade um blogue denominado “Mais Lusitânia”, cujo ideólogo e responsável máximo é o salazarista, militante do PSD, vindo do PCP e do maoismo, Heduino Gomes, o “camarada Vilar, secretário-geral do PCP(m-l), a verdadeira esquerda, o verdadeiro partido dos trabalhadores”.

Naquele blogue é atacado de um ponto de vista reaccionário o Concílio Vaticano II, bem como os Papas João XXIII e Paulo VI.

Curiosamente, o único político no activo que elogiou a mensagem do Papa à Cúria que o rodeia foi o comunista e ateu Arnaldo Matos, principal fundador do PCTP/MRPP, num editorial que publicou no jornal electrónico do seu partido, o “Luta Popular on line”, intitulado “Sem Papa na Língua…”

Ali menciona o silêncio da imprensa sobre a mensagem natalícia e demais actividades do Papa Francisco, dizendo “passam-se meses inteiros, sem que a imprensa, a rádio e a televisão do Planeta publiquem uma notícia, editem um comentário ou divulguem uma imagem sobre a vida e a actividade de Francisco”. Mais afirma defender o Papa  uma linha “progressista de apoio aos pobres do mundo e do combate ao capitalismo imperialista”. A Igreja portuguesa também não escapa às críticas do mais conhecido responsável do MRPP.

Um ex-ateu e marxista-leninista comporta-se como um “taliban do catolicismo”. Outro ateu e marxista-leninista de hoje e de sempre apoia posições do Papa Francisco. Será que aqueles que apelidavam de piegas e revolucionários todos os que falavam de justiça social, de melhor repartição de riqueza, repudiavam paliativos assistencialistas e defendiam políticas sociais activas durante o “ajustamento”, vão apelidar Francisco de comunista?

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