Manuel Silva

As mudanças(?) de ZITA SEABRA

 

Na sua edição do passado dia 25 de Novembro, o jornal “Expresso” publicou uma entrevista de vida com a ex-dirigente do PCP e actual militante do PSD, Zita Seabra.

Em 1966, com apenas 17 anos, Zita Seabra torna-se funcionária do PCP, mergulhando na clandestinidade, na qual se manteve até ao 25 de Abril.

Devemos à luta e sacrifício de Zita e outras pessoas, de vários partidos e ideologias, a liberdade que hoje respiramos. No entanto, no pós-25 de Abril, então dirigente da UEC (União dos Estudantes Comunistas), que a minha geração conheceu pela sua agressividade, violência e vontade de se impôr pela força, Zita Seabra não só era ortodoxa, como confessa na entrevista, mas também responsável pelo comportamento atrás descrito da organização estudantil do PCP. O seu discurso era violento e odioso.

Durante a perestroika, no tempo de Gorbatchev, entra em discordância com o partido e Álvaro Cunhal, acabando por ser expulsa, por unanimidade, pelo Comité Central. Afirmou ter saído da sala onde decorreu a reunião chorando, o que contrasta com a educação política que teve, baseada na chamada firmeza bolchevique. Se diante da PIDE não devia chorar, naquele momento também não. Embora sozinha, deveria ter-se mostrado mais firme.

Passados uns anos, aquela ex-comunista adere ao PSD, dizendo que “continuava a ser de esquerda, podendo sê-lo no PSD”, o que é verdade, pois este partido, pelas suas origens, linha geral teórica e acção, alberga um eleitorado que vai da direita moderada à esquerda moderada.

Na entrevista em causa, Zita diz claramente ser uma mulher de direita e entender que as alternativas políticas não devem ser elaboradas a partir do centro, mas de dois blocos: um de esquerda e outro de direita. Assim tem sido desde a chegada do seu predileto Passos Coelho à liderança do PSD, operando neste uma viragem que traiu a social-democracia e o tornou num partido liberal-conservador, em muitas matérias à direita do CDS e da generalidade dos partidos conservadores europeus.

Aquele caminho conduziu o PSD aos resultados das últimas autárquicas, especialmente nos grandes centros. No entanto, Zita defende essa via e, por tal motivo, apoia a candidatura de Pedro Santana Lopes à presidência do partido, chamando aos apoiantes de Rui Rio a velha guarda. Vá lá, já teve uma evolução na qualificação dessas pessoas. Em outros tempos chamava-lhes fascistas e reaccionários. Essa “velha guarda” é constituída por pessoas verdadeiramente sociais-democratas, defensoras da herança de Sá Carneiro, que, quando o liberalismo económico se tornou moda, na volta da década de 70 para a década de 80 do século passado, através da governação de Reagan e Thatcher, repudiou o mesmo, em nome da social-democracia.

Uma boa parte dos passistas são meninos bem, betinhos, do país de cima, vindos da JSD, que do país e do povo nada conhecem, senhora Zita Seabra. Enquanto passou a sua juventude no aparelho do PCP e parte dela na clandestinidade, mas era politizada, eles e elas passam o essencial das suas vidas nas sedes do partido, bajulando o seu aparelho e esmolando um tacho, sem terem, contrariamente a si, uma boa formação política, ideológica e cultural. Já agora, Rui Machete é algum jovem? Não faz parte da velha guarda do PSD? Reparou, por acaso, ser Santana Lopes um ano mais velho que Rui Rio?

Se o PSD, com Rui Rio, regressar à social-democracia, recusando ser considerado um partido de direita, Zita Seabra, para ser coerente, deverá demitir-se do PSD e aderir ao CDS. Lá é o seu lugar.

Na entrevista, Zita diz ter-se encontrado com a fé, sendo católica. Fala bastante de religião, de um ponto de vista conservador e muito ortodoxo. Não tem uma palavra de elogio para o Papa Francisco. Pudera, quando o mesmo fala da “economia que mata” está a referir-se ao modelo seguido pela ex-delfim de Cunhal.

Zita mudou muito, sem dúvida. Mas há coisas em que não mudou. Esteve sempre disponível para seguir todos os líderes do PSD, sem fazer a menor crítica a qualquer um deles. Hábitos juvenis que não perdeu!

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