Manuel Silva

Início de um novo ciclo

O Presidente da República disse há algum tempo estarmos perante um novo ciclo que terminaria nas eleições autárquicas. Depois, logo se veria.

As autárquicas realizadas no passado dia 1 marcaram mesmo o fim de um ciclo político e o princípio de outro.

Sem constituir novidade, o PS foi o grande vencedor, sendo o partido com maior número de câmaras e assembleias municipais, juntas de freguesia e mandatos. Reforçou a sua votação de há 4 anos e cresceu de forma clara relativamente às legislativas de 2015, o que demonstra a boa fase e popularidade que António Costa e o governo atravessam.

O PCP/CDU, apesar de ter obtido 9,5% de votos, percentagem superior às legislativas de há dois anos, facto que passou “despercebido” à nossa comunicação social, perdeu câmaras muito importantes para os socialistas, em Almada, no Barreiro e alguns concelhos alentejanos. O BE subiu, mas pouco, não tendo ganho qualquer câmara municipal. A propósito, felicito o meu amigo Rui Costa pela sua eleição para a Assembleia Municipal de Lisboa.

Os votos da CDU e do BE somam cerca de 13%, enquanto nas últimas eleições legislativas somavam à volta de 18%. Ou seja, o PCP mostra ter uma base social de apoio muito mais robusta que os bloquistas. Por outro lado, o PS  “comeu” boa parte do eleitorado dos seus aliados. Já ninguém duvida que, neste novo ciclo, António Costa, o governo e o Partido Socialista irão fazer tudo para alcançar a maioria absoluta nas legislativas de 2019. O PCP e o BE já o perceberam. Daí as críticas que têm feito nos últimos dias ao governo, muito especialmente o PCP, que através da CGTP ou da FENPROF, lideradas por membros do seu Comité Central, tem apelado à contestação social como nunca havia feito nos últimos dois anos.

Mais uma vez vários independentes foram eleitos presidentes de câmaras e juntas de freguesia, com destaque para a vitória de Rui Moreira por maioria absoluta no Porto e de Isaltino Morais em Oeiras. Neste último concelho, com o devido respeito pelos oeirenses, está-se perante uma nítida manifestação de terceiro mundismo num dos principais concelhos de um país da União Europeia.

O CDS obteve um bom resultado no país, ganhando 6 câmaras e mostrando ser a alternativa a Fernando Medina em Lisboa, onde obteve o dobro dos votos do PSD, o qual ficou pouco acima da CDU. Assunção Cristas consolidou a sua liderança. Fala agora em concorrer o seu partido sozinho às legislativas de 2019 e não se tem referido após o dia 1 de Outubro  ao PSD como seu parceiro estratégico.

O PSD, especialmente Passos Coelho e quem o tem rodeado, sofreram uma derrota monumental, maior que há 4 anos. Em Lisboa, Porto e cidades suas limítrofes, aquele partido registou votações entre os 9% e os 12%. O PSD é um médio partido e essencialmente rural nas autarquias locais. Perdeu o apoio da juventude, de enorme parte dos idosos e dos sectores mais dinâmicos da sociedade. Eis a consequência da sua viragem à direita, da governação entre 2011 e 2015 e da oposição desastrada dos últimos 2 anos.

Passos Coelho assumiu as suas responsabilidades, não se recandidatando a presidente do partido nas eleições a realizar até ao fim do presente ano.

O PSD deverá virar à esquerda relativamente à política passista, voltando a ser o partido social-democrata, central, reformista, inter-classista, defensor da ascenção social conjugada com a igualdade de oportunidades, de um Estado Social sustentável e que procure conciliar a participação nas instituições europeias com os interesses e a soberania nacionais, elegendo um líder e uma equipa que corporize estes princípios.

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