Manuel Silva
País do futebol e do samba
O Brasil é considerado o país do futebol e do samba, actividades que sempre ali tiveram uma grande popularidade.
No tempo da ditadura militar, o futebol, especialmente durante o Campeonato do Mundo realizado no México em 1970, quando o Brasil se tornou tri-campeão, foi utilizado como cortina de fumo, para fora, e como alienação para os brasileiros, tendo em vista esconder e fazer “esquecer” os crimes do regime.
No entanto, os militares brasileiros sempre foram alvo de contestação até à instauração do regime democrático nos anos 80 do século passado. Entre aqueles que desafiaram a prisão, a tortura, os desaparecimentos e os assassinatos contavam-se intelectuais, artistas, jovens trabalhadores e estudantes , operários e camponeses pobres.
Uma das mais conhecidas jovens contestatárias dos anos 60 e70, então dirigente estudantil, foi a actual Presidente do Brasil, Dilma Rousseff , a qual militou na extrema-esquerda e participou na luta armada contra o regime militar reaccionário. Como tantas outras pessoas da sua geração, esteve presa e foi torturada.
Passados todos estes anos, novamente grande parte do operariado e dos jovens – estudantes, trabalhadores e desempregados – está nas ruas em luta contra a organização do Campeonato do Mundo de Futebol, alegando, com provas, gastar o Estado brasileiro, nesta iniciativa, muito dinheiro que faz falta para a educação, a saúde, transportes e vias de comunicação decentes.
Para esta multidão de manifestantes não basta falar de liberdade, de democracia e de “esquerda” quando se renegam, na prática, os seus valores fundamentais, para benefício de grandes empresas construtoras multi-nacionais. Como cantava Sérgio Godinho nos idos de 1974/75, “só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação…”
A Presidente da República respondeu aos manifestantes, dizendo que tem gasto em vias de comunicação e obras sociais o dobro do investido no Mundial/2014. Pudera! Num país com o tamanho do Brasil até parece que faz muito naqueles sectores!… Se o dinheiro canalizado para o campeonato do mundo o fosse para as necessidades sociais, não haveria esta revolta, porque os brasileiros mais necessitados estariam melhor.
Dilma Rousseff é mais uma entre muita gente que no poder “esquece” os ideais generosos por que lutou, por vezes iludida por utopias cujo paraiso prometido foi um autêntico inferno, e passou a servir o capitalismo que combateu precisamente numa época em que o mesmo abandonou qualquer humanismo e se aproxima, dia após dia, do capitalismo selvagem do século XIX . Não são apenas Passos Coelho, Durão Barroso, Nuno Crato, Franquelim Alves, Heduino Gomes (Vilar), Helena Matos, Luis Marques, José António Lima, José Manuel Fernandes, João Carlos Espada e tantos outros nossos conhecidos a fazê-lo.
No entanto, há centenas de milhares ou mesmo milhões de brasileiros a mostrar que o seu país não é só “o país do samba e do futebol”. Também é um país onde se luta por um amanhã melhor. Aprenderam com o fim da ditadura militar fascista, que durou cerca de 20 anos, valer a pena fazê-lo.Redação Gazeta da Beira
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