Manuel Silva

Diferenças entre Marcelo e Cavaco

Na anterior edição de “Gazeta da Beira” referimo-nos às diferenças de popularidade e de nível intelectual entre Marcelo Rebelo de Sousa e Cavaco Silva, as quais são nitidamente visíveis. Enquanto o primeiro tem uma opinião fundamentada sobre todos os aspectos da vida, o segundo só fala de números. Para ele, as pessoas pouco ou nada contam. Marcelo, como qualquer pessoa – não é preciso possuir formação superior – que pensa e reflecte, tem dúvidas e admite enganos. Cavaco raramente se engana ou tem dúvidas, o que mostra ser alguém pouco dado à reflexão.

Quando chegou à liderança do PSD, Cavaco Silva afirmava serem “os problemas nacionais técnicos e não políticos”. Mostrou claramente ao que vinha: subordinar a política à economia e à técnica, o que é contrário à verdadeira democracia, na qual a economia, as finanças e a técnica estão submetidas ao poder político eleito pelo povo. Qualquer ditador ou a tal candidato não diria pior. Retrospectivamente, tem que ser dada razão ao já falecido deputado socialista Sottomayor Cardia quando, no debate de apresentação do programa do primeiro governo cavaquista na A.R., disse, dirigindo-se ao então primeiro-ministro, “ o senhor só não é um ditador porque a Constituição o impede”.

Na governação, não destruiu a democracia, pois a Constituição e as chamadas forças de bloqueio não lho permitiram, mas o PSD viveu períodos de autêntica ditadura, em que havia medo do chefe. Militantes que se recusaram a apoiar Freitas do Amaral, pessoa alheia ao PSD, nas presidenciais de 1986, e apoiaram Mário Soares, foram expulsas. O mesmo aconteceu ao militante histórico Carlos Macedo por discordar da política de saúde de Leonor Beleza. Debates que pudessem pôr em causa o cavaquismo estavam proibidos. Por essas e por outras, Fernando Nogueira, um autêntico social-democrata, perdeu para António Guterres as legislativas de 1995 por 10% de diferença.

Quando foi eleito Presidente da República pela segunda vez, na noite da vitória fez um discurso revanchista e insultuoso contra os seus adversários. Pouco depois, no acto de posse, fez um discurso “social”, responsabilizando o governo de José Sócrates pelas situações de pobreza que se faziam sentir. No entanto, sempre apoiou a política mais anti-social e empobrecedora de quem já era pobre e das classes médias, vista no regime democrático, de Passos Coelho e Paulo Portas. Por isso, foi o P.R. mais impopular do regime, tendo saído do cargo de mais alto magistrado da nação ainda mais detestado que os seus protegidos.

Cavaco sempre defendeu a ditadura (sic) do ministro das Finanças (mais uma vez a subordinação do político ao económico-financeiro. Compreende-se porque foi um dos maiores entusiastas do acordo tecnocrático de Maastricht e do euro, impeditivos de um desenvolvimento económico e social sustentado de todos os países europeus, prejudicando os mais pobres.

Marcelo Rebelo de Sousa sempre defendeu a subordinação do poder económico ao poder político, práticas sociais baseadas na doutrina social da Igreja Católica. Quando liderou o PSD, havia no partido ampla liberdade de discussão.

Recentemente, o Presidente da República deu outra bofetada de luva branca em Cavaco, que passou despercebida na comunicação social, aconselhando os ministros responsáveis pelos assuntos sociais a reclamarem junto dos ministros das Finanças pela obtenção de mais verbas. Estas afirmações contradizem não só a tese da “ditadura dos ministro das Finanças” como as chamadas “regras europeias”, das quais o homem de Boliqueime é um entusiasta. Foi, aliás, em nome das mesmas, que destruiu grande parte da nossa agricultura, da nossa indústria pesada, das nossas pescas e indústria pesqueira, passando o nosso país a comprar os produtos fabricados por aqueles sectores aos países mais ricos da UE, criando o início do nosso endividamento e futura bancarrota.

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