Manuel Silva

Ressabiamento e reaccionarismo primário no PSD

A política actual do partido dito social-democrata caracteriza-se por uma enorme falta de ideias e perspectivas de futuro. Daí que esteja abaixo dos 30% nas sondagens, enquanto o PS quase atinge a maioria absoluta, a direita aparece nas mesmas sondagens em minoria, claramente abaixo dos 40%, sendo suplantada pela esquerda bem acima dos 20%.

Quando O PSD e o seu “braço esquerdo”, CDS, foram afastados pelo parlamento do governo, afirmaram que a “geringonça” não duraria muito tempo, perspectivando o seu regresso ao poder brevemente. Como provas de que o CDS era o “braço esquerdo” e não o “braço direito” do partido laranja, como afirmava Paulo Portas, na tentativa de efectuar uma coligação – o que conseguiu – com Durão Barroso em 2002, temos as posteriores afirmações racistas, xenófobas e ultra-reaccionárias de um tal André Ventura, candidato do PSD à presidência da C.M. de Loures, caladas pelos dirigentes do seu partido e repudiadas pelo CDS, que rompeu a aliança com aquele seu parceiro, e os elogios de Portas à ditadura cleptocrática e sanguinária de José Eduardo dos Santos, que já foi comunista da linha dura e se afirma hoje socialista, publicados no “Expresso”. Les beaux esprits se rencontrent…

Paulo Portas, mais culto, inteligente e com feeling político claramente superior ao banal Passos Coelho, abandonou a actividade política, à espera de melhores dias.

Quando a actual legislatura está quase a meio, a economia cresce e o desemprego desce bem além das perspectivas mais optimistas, o investimento privado aumenta, o que demonstra não temerem os investidores, especialmente os estrangeiros, a existência de um governo socialista apoiado por comunistas e por antigos seguidores de Mao, Enver Hodxa ou Trotsky. O défice está em 2%, o melhor dos 43 anos de regime democrático. Apesar de descurar as suas funções de soberania, como se viu no incêndio de Pedrógão Grande ou nas consequências do assalto a Tancos, por aqueles motivos, o governo de António Costa continua a usufruir uma elevada popularidade.

Pedro Passos Coelho e a actual direcção do PSD estão desorientados e ressabiados. Cada frase que lhes sai da boca é um tiro no pé. Queriam saber em 24 horas quantos mortos houve em Pedrógão. O Ministério Público esclareceu-os. Mais uma prova de que o aproveitamento político das desgraças alheias – embora o governo e os serviços de si dependentes não tenham estado bem no combate àquele incêndio – não resulta. Recentemente, Passos Coelho disse que se estivesse no poder, a economia cresceria mais, o défice e a dívida pública desceriam mais. A demagogia, para este cavalheiro, não tem limites. Senão vejamos. Apesar da brutalidade das medidas que tomou no governo, a dívida aumentou um terço. Deixou um défice de mais de 4%, enquanto o acordo com a troika dizia, preto no branco, que o mesmo, no final de 2013, deveria estar em 2,5%. Foi o actual governo que conseguiu esse objectivo. Para alcançar as suas actuais promessas, não diz o que faria, mas subentende-se: continuar a apostar no empobrecimento e nos baixos salários, a “moda” neo-liberal criadora de maiores desigualdades sociais, aumentando o rendimento dos patrões e diminuindo o dos trabalhadores. Foi esta a política do ex-PAF, que levou à sua derrota nas últimas legislativas. Recordamos que apesar de o PAF ser a coligação vencedora, 62% dos portugueses apontaram-lhe o caminho da rua.

Na universidade de Verão da “jotinha” laranja, Cavaco tentou dar uma ajuda ao seu partido, que acabou por lhe sair pela culatra. Veio dizer que a melhoria das condições de vida da população teve como consequência o aumento de impostos indirectos e cativações. Se tal acontece, deve-se às políticas rígidas, tecnocráticas e alheias ao bem estar social das populações, que ele e seus comparsas, na altura governantes da CEE e, posteriormente, da UE, adoptaram em Maastrich, há um quarto de século. Há, no entanto, uma diferença: para cumprir essas políticas inimigas do progresso, crescimento, emprego e melhoria do poder de compra, o actual governo optou por aquelas medidas, como diz, o governo Passos-Portas, seu protegido, optou por castigar os mais vulneráveis da sociedade e a classe média.

Como pode o ex-PR falar em aumento de impostos se, em tempo de “vacas gordas”, o seu governo, através de Oliveira e Costa, agora a contas com a justiça, no caso BPN, aumentou, e de que maneira, impostos directos e indirectos?

A receita de Cavaco é a mesma de Passos. Cavaco usou naquele encontro uma linguagem de político de tasca, ao referir-se aos “pios”. Falou de “revolução socialista”. Por acaso houve algum assalto armado a S. Bento, como, há 100 anos, em Sanpetersburgo? Enfim, há coisas que a idade não perdoa… Era o que o PSD dizia de Mário Soares.

Por outro lado, o homem de Boliqueime mostrou-se ressabiado com a popularidade de Marcelo, do qual levou uma “bofetada de luva branca”, demonstrativa das diferenças culturais e intelectuais entre ambos. Mário Soares tinha razão quando afirmava “ele (Cavaco) não tem mundo”.

Para cúmulo, o candidato do PSD à Câmara de Loures, André Ventura, após demonstrar a sua boçalidade em programas desportivos na televisão, veio defender ideias racistas e reaccionárias. Defendeu o regresso da pena de morte para certos crimes. Portugal foi o primeiro país, no século XIX, a abolir a pena de morte. Os dirigentes do PSD, com Passos Coelho à cabeça, vão calando, consentindo, estas bacoradas de um populista reaccionário e fascista que milita nas suas fileiras.

É este o estado a que chegou o PSD. Bem merece a derrota que irá sofrer no próximo dia 1 de Outubro.

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