Manuel Silva
O velho e o novo PSD nas comemorações do 25 de abril

Na sessão solene comemorativa da Revolução do 25 de Abril na Assembleia da República, a intervenção da representante do PSD – e candidata a Presidente da Câmara de Lisboa – Teresa Leal Coelho parecia dirigir-se ao Portugal de há 30/35 anos.
Teresa Leal Coelho estabeleceu no seu discurso um paralelo entre a economia de mercado, as liberdades fundamentais e as economias de direcção central comunistas, falhadas em todo o mundo, bem como a inexistência de liberdade política colateral às mesmas.
A contradição fundamental das sociedades actuais não é essa, mas a defesa da liberdade, da democracia, da tolerância contra o populismo extremista, de direita e de esquerda, que tão bem tem navegado nas águas turvas da organização social injusta produzida pela prática da ideologia actualmente perfilhada pelo PSD, o neo-liberalismo, bem como o terrorismo do DAESH e da Al Qaeda.
Leal Coelho falou (muito) vagamente da necessidade de uma sociedade inclusiva. Mais falou da urgência de fazer crescer a economia e o emprego. No entanto, não mencionou a necessidade da melhoria das condições de vida dos trabalhadores e da população, em geral, da restauração de uma classe média maioritária e de uma melhor distribuição da riqueza criada e a criar. Para o PSD o crescimento, a competitividade empresarial e o emprego continuam a dever assentar nos baixos salários e no empobrecimento. Também não mostrou qualquer preocupação com o avanço da direita radical e nacionalista, quando o seu partido é mais bruxelista e berlinista que os habitantes de Bruxelas ou de Berlim, ou com o perigo que o Presidente americano Donald Trump representa para o mundo.
Só pode ficar espantado com tal discurso quem não esteja atento a algumas das últimas posições do PSD. Dali têm vindo críticas muito veladas a Trump, quando não elogios de alguns dos seus militantes.
Está espelhada naquela intervenção a ideologia do novo PSD, que não é social-democrata, mas de direita e liberal-conservador.
Fernando Medina já pode encomendar o champanhe para o próximo dia 1 de Outubro, pois facilmente derrotará as senhoras candidatas dos partidos da direita.
Como ex-militante do velho PSD, também não me espanto com o estado a que este partido chegou. Enquanto ali militei ouvi vários companheiros elogiar Salazar e até defender a vitória, há muitos anos, de Jean Marie Le Pen contra Jacques Chirac, na segunda volta das eleições presidenciais então ocorridas na França. Chirac também se situava à direita do PSD…
O velho PSD, social-democrata, inter-classista, empenhado na luta contra a pobreza, o partido dos “self-made-man”, também esteve “presente” nas comemorações do 25 de Abril.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, cujas funções o colocam acima dos partidos, também pertence ao PSD, do qual foi um dos primeiros militantes. Situado na ala direita do partido, sempre foi social-democrata e influenciado pela doutrina social da Igreja Católica. No seu discurso recordou aos partidos políticos a necessidade de fazer crescer a economia, COM MELHOR DISTRIBUIÇÃO DE RIQUEZA. Está aqui a diferença entre o velho PSD sá carneirista e o novo PSD passista.
O novo PSD tem mais força do que muito boa gente pensa e escreve, pois controla o aparelho partidário, o que leva Passos Coelho a afirmar que seja qual fôr o resultado das próximas eleições autárquicas, não se demitirá da liderança. As pessoas que o rodeiam preferem ter lugares na oposição do que ver alguém vitorioso na liderança do partido que, certamente, escolheria outro pessoal político.
No congresso do PSD do próximo ano, a restauração do velho PSD não se vislumbra fácil.
Comentários recentes