Manuel Silva
Cartão vermelho para o Governo e cartão amarelo para o PS
Nas recentes eleições para o P.E. pouco se falou da construção europeia e dos seus problemas. Aos partidos da maioria e ao PS tal não interessava, pois as políticas federalistas pelos mesmos defendidas estão também, e em boa parte, na origem da crise actual.
A elevada abstenção (2/3 do eleitorado) mostrou o descrédito da maioria dos actuais agentes políticos, com especial destaque para os dos chamados partidos do arco governamental (PS, PSD e CDS).

O terço dos eleitores que se deslocou às urnas de voto infligiu a mais pesada derrota de sempre aos partidos da direita. Juntos valem apenas 27,7% de votos, o que mostra o seu isolamento na sociedade.
A diferença entre as votações somadas do PS, da CDU, do MPT e do BE e a do PSD/CDS (Aliança Portugal) é de 28%, ou seja, é superior ao score dos partidos do poder.
Esta foi também a derrota de Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa, Santana Lopes, Marques Mendes, Luis Filipe Meneses e Pinto Balsemão, ex-líderes do PSD, que deram a cara pela política do seu partido durante a campanha eleitoral. Alguns deles escusam de se fazer passar por críticos, pois na hora exacta apoiaram esta política desastrosa.
O cartão vermelho exibido pelo eleitorado atingiu também Cavaco Silva e a imprensa ao serviço do governo: “Expresso”, “Sol”, “Diário de Notícias”, etc.
A CDU subiu consideravelmente, atingindo uma percentagem (quase 13%) que não se verificava desde a queda do muro de Berlim e o fim da URSS. A actual direcção maioritariamente operária do PCP, que encarna a essência da sua base social de apoio, aliada à juventude, à inteligência e à irreverência de João Ferreira, estão na origem deste sucesso.
O BE continua a sua descida, à semelhança do verificado em actos eleitorais anteriores. Faz-lhe falta o carisma e a experiência dos anteriores dirigentes, seus fundadores, especialmente de Francisco Louçã.
O MPT foi a grande surpresa eleitoral, elegendo dois deputados e ultrapassando os 7% de votos, o que, sem dúvida, se deve ao seu cabeça de lista, Marinho Pinto.
A vitória das forças oposicionistas caracateriza-se por grande dispersão de votos, pois o PS só obteve mais 3,8% de votos que a lista PSD/CDS e elegeu apenas mais 1 deputado que esta coligação. Ou seja, os socialistas obtiveram uma vitória amarga, que se pode também considerar, usando uma linguagem desportiva, um cartão amarelo dos eleitores, apesar do desgaste e da espectacular derrota da direita no poder. Há dois motivos para tal: em matéria de política europeia, PS e PSD são Dupont e Dupond. Ambos defenderam tratados e acordos federalistas, elaborados de forma anti-democrática e nas costas dos cidadãos. A nível de política interna, o PS mostrou-se incapaz de apresentar uma alternativa válida à política pelo próprio Passos Coelho apelidada “de empobrecimento”.
Além da derrota da dupla Passos/Portas, estas eleições determinaram uma clarificação dentro do PS.
A direita dificilmente recuperará a maioria do eleitorado perdido até às próximas legislativas. Se António Costa for eleito líder do PS e candidato a primeiro-ministro , com a sua experiência, nível e capacidade políticos, poderá conduzir o seu partido a uma vitória com maioria absoluta, pondo fim à famigerada alternância, a qual dará lugar a alternativas opostas.
ELEIÇÕES LÁ FORA
Nos outros países da UE verificou-se também uma elevada abstenção, de um modo geral, acima dos 60% . O federalismo construido contra as normas essenciais da democracia, a crise e a apreensão do Estado pelos interesses económicos e financeiros constituem a explicação para o facto, bem como para o avanço da extrema-direita, vencedora na Inglaterra, na França e na Dinamarca, tendo obtido bons resultados em outros países, e da extrema-esquerda (Syriza) na Grécia.
Os partidos do poder, a nível nacional e europeu, registaram grandes recuos, não percebendo o que se passou e continuando o salto para o abismo. As principais forças europeias têm que mudar de políticos e de políticas, sobretudo mais viradas para o crescimento da economia, acompanhado de distribuição da riqueza com justiça social.
Os partidos socialistas registaram significativas derrotas, o que se entende facilmente. O que fizeram de diferente da nova direita anti-social europeia? Veja-se a traição do presidente francês François Hollande relativamente ao que prometeu na campanha que o conduziu à chefia de Estado.
A esperança da esquerda num amanhã melhor parece agora residir no jovem primeiro-ministro italiano Matteo Renzi.Redação Gazeta da Beira
Comentários recentes