Manuel Silva
Um processo curioso ou talvez não

Recentemente, o deputado madeirense eleito pelo PTP, José Manuel Coelho, foi condenado na pena de 1 ano de prisão por dias livres, a ser cumprida aos fins de semana, pela prática de um crime de difamação na pessoa do antigo dirigente do PCTP/MRPP António Garcia Pereira, dado ter afirmado ser este agente da CIA e “fazer processos aos democratas da Madeira, a pedido de Alberto João Jardim”.
Na primeira instância, José Manuel Coelho havia sido absolvido. No entanto, o Ministério Público e Garcia Pereira recorreram daquela decisão para o Tribunal da Relação de Lisboa, que proferiu a decisão acima mencionada, sobre a qual o advogado que já foi a figura mais destacada do MRPP afirmou: “é justa, finaliza e consagra que na vida, em particular na vida política, não vale tudo e não é aceitável que se possam produzir ataques pessoais e vexames dos mais primários”.
Dizer que o MRPP trabalhava para a CIA – o que é uma mentira – era habitual entre os restantes partidos de esquerda marxista, a começar no PCP, e por pessoas afectas a essa área. A resposta do partido de Arnaldo Matos e dos seus militantes foi sempre política e nunca judicial.
É estranho e curioso como Garcia Pereira processou criminalmente um excêntrico que ninguém leva a sério e não faz o mesmo relativamente aos seus antigos camaradas, que também o apelidam de “agente da CIA” bem como lhe dirigem no “Luta Popular on line”, órgão central do partido, expressões bem mais ofensivas.
Na edição electrónica do “Luta Popular” são escritas sobre Garcia Pereira expressões como estas: “Garcia Pereira, o chulo”, “vendeu-se por um par de sapatos”, a propósito de uma visita a uma fábrica de calçado, durante uma campanha eleitoral, onde elogiou o funcionamento da mesma e terá recebido um par de sapatos, no valor de 4 000,00 euros.
O director do “Luta Popular”, Carlos Paisana, em artigo publicado há alguns meses, chamava Garcia Pereira de “vendido ao serviço da CIA, das novas secretas e do imperialismo (…) um canalha!”.
Carlos Paisana foi durante décadas “unha com carne” com Garcia Pereira. Quando este se candidatou por duas vezes à Presidência da República, o director do “Luta Popular” foi o seu director de campanha. Normalmente andavam juntos em acções de propaganda. Foram os dois responsáveis pela demissão de Arnaldo Matos do cargo de secretário-geral do PCTP/MRPP no dia 13 de Novembro de 1982, por, numa reunião do Comité Central, lhe terem afirmado estar resolvida a questão do aparecimento do símbolo e da sigla do partido nos boletins de voto das eleições autárquicas que ocorreram cerca de um mês depois, o que era mentira, como confessaram ao próprio Arnaldo. Porque os demais dirigentes presentes foram complacentes com aquela atitude de Garcia e de Paisana, o líder bateu com a porta.
Arnaldo Matos, além de permanentemente apelidar Garcia Pereira, o último secretário-geral do partido, Luis Franco e Domingos Bulhão, membros do Comité Central expulsos quando regressou ao comando das decisões, de “traidores”, “liquidacionistas”, “anti-comunistas primários”, “ignorantes”, tem-lhes constantemente dirigido expressões que constituem um autêntico assassinato de carácter. Num editorial, além chamar a Garcia Pereira “papagaio encornado”, escrevia: “o chibarro Garcia coça os cornos de desespero”.
Antes de serem expulsos do partido, aqueles seus antigos dirigentes foram suspensos, à semelhança de Artur Antunes e do próprio Carlos Paisana – o então Comité Permanente do Comité Central. Só que, Antunes e Paisana foram recuperados. Mesmo assim, quando lhe convém, Arnaldo Matos ataca o que chama de “bando dos 4”: Garcia Pereira, Luis Franco, Domingos Bulhão e o próprio Carlos Paisana.
Não se entende porque António Garcia Pereira não processa quem o ofende muito mais que o divertido Coelho, nem porque nunca respondeu aos ataques políticos que lhe são lançados por aqueles a quem esteve ligado mais de 40 anos. Recentemente descobri que colabora no jornal electrónico “O Tornado”. Li alguns dos seus artigos ali publicados. Continua a defender as suas ideias de sempre, mas não se defende dos ataques do PCTP/MRPP.
Este silêncio é ensurdecedor. No blogue “As Mentiras do Arnaldo”, feito por pessoas que acompanharam Garcia Pereira na saída do partido, onde são dirigidos vários ataques a Arnaldo Matos e seus seguidores, há quem assine as suas peças sob pseudónimo e quem o faça abertamente, como Domingos Bulhão. Não aparece nada escrito por Garcia Pereira, que, por tal motivo, já foi criticado nesse blogue.
Este comportamento significa que, ataques pessoais à parte, os ataques políticos da actual direcção do MRPP e de Arnaldo Matos aos seus antigos “compagnons de route” são verdadeiros? Temerá Garcia Pereira outras revelações ainda mais drásticas sobre a sua passagem pelo partido? Já foi divulgada no “Luta Popular” uma carta sua dirigida a Arnaldo Matos quando ainda estava no partido, onde são abordados problemas familiares seus, em consequência da actividade política, dizendo estar à beira do divórcio. Arnaldo Matos tem ameaçado os dirigentes expulsos de publicar as suas auto-críticas anteriores às expulsões, que, como sabe quem passou naquele partido, são actos confrangedores e auto-humilhantes.
Tudo isto conduz à conclusão de que algo de misterioso ainda estará para ser conhecido.
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