Manuel Silva

PSD, o partido do patronato

No final do Verão de 2012, o governo de Passos Coelho e Paulo Portas pretendeu baixar a TSU (Taxa Social Única) em 5,75% para o patronato e aumentá-la em 7% para os trabalhadores, passando uns e outos a pagar o mesmo: 18% sobre o vencimento dos assalariados. Era a política do Robin dos Bosques ao contrário. Tirava-se aos trabalhadores para dar aos patrões, aumentando ainda mais as desigualdades entre uns e outros, tudo, claro, em nome da competitividade. Esta e outras medidas mostram que a direita, portuguesa e europeia, quando fala de melhorar a competitividade refere-se a baixos salários, perda de direitos por quem trabalha e aumento do fosso entre ricos e pobres.

A resposta dos sindicatos e dos trabalhadores não se fez esperar, saindo à rua bem mais de um milhão de pessoas contestando aquela tentativa de alteração legislativa, a qual foi engolida pelo governo PSD/CDS.

Recentemente, foi acordado entre o governo, as associações patronais e a UGT o aumento do salário mínimo nacional para 557,00 euros, tendo como principal contra-partida a descida da TSU em 1,25% para os empregadores.

O PCP, os Verdes e o Bloco de Esquerda não aceitaram aquele acordo, o mesmo acontecendo com o PSD, sendo a baixa da TSU substituída pela redução do PEC (Pagamento Especial por Conta), que obteve aprovação parlamentar e promulgação pelo P.R..

Vários analistas, comentadores e políticos afirmavam estar-se perante uma coligação negativa circunstancial entre PSD, PCP, Verdes e BE, acusando o partido de Passos Coelho de ser incoerente com o que anteriormente defendeu relativamente à TSU.

Os motivos dos partidos de esquerda que têm um acordo parlamentar com o governo são muito diferentes dos do PSD. Este partido está a ser coerente com o que pretendeu fazer em 2012, pois começou por dizer que “se o PS não se entendia com os seus aliados de esquerda, não contasse com o PSD”, acabando Passos Coelho por afirmar não ser realista o aumento do salário mínimo. Ele e quem o rodeia deveriam passar um ano a receber 557,00 euros/mês para ver a “realidade”, termo de que a direita tanto gosta, em que vive quem aufere tal quantia.

Os objectivos do partido laranja em 2012 e 2017 são exactamente os mesmos: prática de baixos salários e aumento das desigualdades entre pobres e ricos, para além do empobrecimento da classe média, o maior de sempre durante o anterior governo.

O leitor já reparou que quando qualquer dirigente laranja fala de economia menciona a competitividade, a confiança dos empresários, os investidores e esquece os trabalhadores? Tal significa serem estes, para o PSD, uma mera peça na engrenagem do capitalismo. O PSD deixou de ser um partido social-democrata, inter-classicista, defensor da ascenção social, o partido dos self-made-man, empenhado no combate à pobreza, como era o partido fundado por Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota. O PSD é o partido do patronato, do país “de cima” e contra “o país de baixo”. Aplica a luta de classes de que falam os marxistas virada de pernas para o ar.

É claro que o PSD não comunga das ideias de Donald Trump sobre o nacionalismo e a globalização, mas tem em comum com esse reaccionário a desregulamentação da economia que, como a prática comprova, leva ao capitalismo selvagem, e a retirada de direitos alcançados pelos trabalhadores com muita luta e muito sangue no passado. Aliás, não se viram até hoje grandes críticas do PSD e do CDS ao trumpismo e ao perigo que representa para a América e para o mundo. Mais: em que partidos votarão aqueles e aquelas que nas redes sociais elogiam Trump? Será nos partidos de esquerda? Os comentadores e analistas políticos que defendiam, com unhas e dentes, o anterior governo justificam, quando não elogiam mesmo, muitos aspectos do trumpismo e atacam os anti-trumpistas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *