Manuel Silva

Encontros e desencontros com Mário Soares (parte 2)

Consolidada a democracia e derrotados os extremismos, Mário Soares foi importante na adesão à CEE, pela qual se bateu desde que foi empossado primeiro-ministro em 1976. Como chefe do governo por duas vezes, de 1976 a 1978 e de 1983 a 1985, enfrentou situações difíceis, evitando a bancarrota com o apoio do FMI. Se chamou esta instituição, tal deveu-se, da primeira vez, à situação herdada do PREC e, da segunda vez, ao legado do governo da AD, liderado por Pinto Balsemão. Esta é a verdade e não o que algumas pessoas do PSD dizem sobre esta questão, mas, a pós-verdade está na moda…

Soares foi eleito Presidente da República em 1986 e 1991. Quando se candidatou pela primeira vez, o ambiente político era-lhe adverso. Cavaco Silva era primeiro-ministro e o PS averbara uma enorme derrota nas legislativas que em 1985 conduziram aquele Professor de Finanças a S. Bento. As primeiras sondagens davam-lhe apenas 8% de votos. Venceu as “primárias” da esquerda, derrotando na primeira volta Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintassilgo, defensores de projectos terceiro-mundistas. À segunda volta chegaram um candidato de direita democrática e social, com apoio também do centro e de parte do centro-esquerda, Freitas do Amaral, e Soares, representando a esquerda moderna, democrática e europeísta. Foi o segundo 25 de Novembro para o PCP e a extrema-esquerda. Na segunda volta, Soares venceu por uma “unha negra”.

No seu primeiro mandato em Belém, o novo PR conviveu com Cavaco Silva na paz dos anjos. No segundo mandato tal já não aconteceu, vivendo-se num clima de guerra institucional, o qual não agradou só à esquerda. Ainda me recordo de, na época, Paulo Portas, director do “Independente”, um tablóide intelectualizado, mostrar satisfação, num programa de Herman José no canal 1, pelas posições de Mário Soares, afirmando ser este o verdadeiro líder da oposição.

Mário Soares ainda foi deputado ao Parlamento Europeu e, já com 81 anos, candidato novamente a Belém, sofrendo a maior derrota da sua vida nas eleições então ganhas pelo seu inimigo de estimação Cavaco Silva.

Enquanto as forças o ajudaram, Soares continuou a fazer política, denunciando os caminhos economicistas e anti-sociais da União Europeia, sob a batuta de Bruxelas e muito especialmente de Angela Merkel, e lutando contra o governo Passos/Portas. O encontro por si convocado para a Aula Magna, aí juntando um grupo de personalidades da direita humanista à extrema-esquerda, foi o começo do que na altura chamei de “frente rejeicionista” que conduziu à perda da maioria pelo PSD e o CDS nas legislativas de 2015 e à constituição da chamada geringonça. Como escreveu na “Sábado” Pacheco Pereira, este aspecto foi alvo de censura em várias notícias e comentários. A quem serve esta censura?

Mário Soares foi das pessoas da nossa época que mais lutaram pela liberdade. No plano ideológico, já na década de 80, abandonou o marxismo e o excessivo estatismo, defendendo a necessidade da iniciativa privada. Quem hoje representa a social-democracia em Portugal é o PS. Quem, nos últimos anos mais próximo esteve do pensamento de Sá Carneiro foi Mário Soares.

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