Manuel Silva
Recordando outros Natais

Na minha infância, não existia o Pai Natal, mas o Menino Jesus, que no dia do Seu nascimento, à meia-noite, “deixava” prendas nos nossos sapatinhos que os nossos pais colocavam na chaminé.
No dia 25 de Dezembro, comentávamos uns com os outros o que o Menino Jesus nos havia dado. Quanto mais ricas fossem as crianças, mais e melhores prendas tinham. Algumas não haviam sido agraciadas com qualquer prenda, ficando muito tristes.
Na minha inocência, algo de errado acontecia na distribuição de prendas. Então Jesus Cristo que havia nascido pobre, numa manjedoura, a sua opção era pelos pobres, discriminava positivamente os meninos e meninas ricos? Quando um dia, teria eu 8 ou 9 anos, a minha saudosa avó materna me disse não ser Cristo, mas os nossos pais a pôr as prendas no sapatinho, percebi tudo.
Hoje, nas sociedades materialistas, injustas e cada vez mais desiguais em que vivemos, fala-se essencialmente do Pai Natal e esquece-se que nesta data se comemora a vinda de Deus, através do Seu Filho, ao mundo, pregar a religião, mas também a defesa de uma sociedade mais justa, tendo, por esse motivo, sido morto pelo poder romano, ao qual foi entregue pela hierarquia religiosa judaica da época, que sempre o perseguiu. Os cristãos têm o dever de informar os seus filhos que o Pai Natal é uma fantasia e elucidá-los sobre o verdadeiro espírito de Natal. Só desta forma serão coerentes com a sua fé.
Há uma bela canção de Natal que diz “no Natal, pela manhã/há em todos os países/muitos milhões de meninos felizes”, o que é verdade, mas também há em todos os países, especialmente nos mais pobres e/ou em guerra, muitos milhões de crianças infelizes. Veja-se as terríveis imagens de Aleppo que todos os dias entram pelas nossas casas. Há milhões de crianças, mas também de adultos, especialmente idosos, que nesta data, como nos outros dias, não têm que comer, vivem na rua, morrem em guerras com as quais nada têm a ver, provocadas pelo terrorismo islâmico, mas também pela geopolítica das principais potências, EUA e Rússia.
Se é certo que enquanto o mundo existir também existirão estes problemas, é dever dos governantes e dos dirigentes das instituições internacionais lutar por uma vida melhor para todos, diminuindo as desigualdades e promovendo a ascenção social dos pobres. A experiência mostra tal não ser possível com os vencedores recentes, agora em perda, os neo-liberais, que provocaram por toda a parte a ganância, o egoísmo e o desprezo pelos que “ficam para trás”. O mesmo se dirá a propósito dos demagogos populistas reaccionários, o principal dos quais foi eleito presidente dos EUA, que começam a substitui-los.
No discurso em que prestou juramento como futuro secretário-geral da ONU, o português, socialista e cristão António Guterres referiu-se à necessidade de serem encontradas soluções para combater as desigualdades e a pobreza, mais afirmando, contrariamente ao escamoteado por conservadores e liberais, que a globalização deixou imensa gente para trás.
Pelo seu passado, António Guterres empenhar-se-á em cumprir o que jurou. Haja homens e mulheres de boa vontade que o acompanhem e ajudem, para que haja muitos mais milhões de crianças e adultos felizes no Natal e em todos os outros dias.
Aos administradores, direcção, colaboradores, anunciantes e leitores de “Gazeta da Beira”, o autor destas linhas apresenta votos de um feliz Natal e um bom Ano Novo.
Comentários recentes