Manuel Silva
Um populista reaccionário na presidência dos EUA

Desde a sua independência, em 1776, a América sempre viveu em democracia. Naquelas paragens as ideologias totalitárias de direita e de esquerda nunca tiveram sucesso. No passado dia 8 de Novembro foi eleito presidente dos EUA Donald Trump, um populista, racista, machista, ignorante e inculto, bem próximo da extrema-direita que o apoia, incluindo a organização racista branca Ku Klux Klan, o qual assume, por outro lado, ideias que farão inveja à esquerda. Afirma que a deslocalização de empresas americanas, como efeito da globalização, está a lançar na pobreza e no desemprego milhões de americanos e a destruir a classe média, o que é verdade. Contrariamente ao ultra-liberalismo do Partido Republicano, assume uma postura keynesiana, prometendo um conjunto de obras públicas novas que puxem pela iniciativa privada.
Este cocktail de ideias afirmou-se, em primeiro lugar, no Partido Republicano, derrotando Trump os outros candidatos daquele partido e o seu aparelho, com o apoio das bases. Nas eleições, presidenciais, o impensável aconteceu: venceu Hillary Clinton e o Partido Democrata, dispondo os republicanos de maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado.
Tão ou mais importante que a apreensão visível sobre o futuro dos States e do mundo é reflectir sobre como foi possível um candidato com tais características ser eleito chefe de Estado (e de governo) do país mais poderoso do planeta. Estes resultados mostram o descrédito dos políticos republicanos e democratas. A política externa de ambos, desde as guerras com o Afeganistão e o Iraque ao apoio às “primaveras árabes”, que se tornaram invernos e infernos de onde saiu o DAESH, tem sido desastrosa. Obama e a responsável pelas relações exteriores americana, a candidata Hillary Clinton, são os principais culpados do desastre.
A nível de política interna, com a administração Obama, a situação dos pobres melhorou, mas não muito. Foi criado o “obamacaire” com o objectivo de possibilitar um maior acesso dos mais desfavorecidos à saúde no país que, sendo o mais rico do mundo, não tem um serviço nacional de saúde digno desse nome. A economia cresceu, mas os salários não aumentaram, em nome da competitividade, à semelhança do que também já acontece na Europa. Ou seja, as desigualdades sociais aumentaram, tal como durante os governos republicanos. O economista americano, professor na Universidade de Harvard e prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, escreveu recentemente que “o rendimento médio dos americanos está ao nível de há 42 anos. O poder de compra é igual ao de há 60 anos”. Esta queda de rendimento atingiu velhos e novos pobres, mas também a classe média.
Tal como na Europa, na América, o poder político está submetido ao poder económico. Nesse aspecto, democratas e republicanos são iguais. Não foi por mero acaso que a candidata de “esquerda” dispôs de muito mais dinheiro para a campanha eleitoral que o magnata seu adversário.
O desencanto e a revolta de muitos milhões de americanos perante este quadro levaram a que elegessem Trump.
Na Europa, os populistas, especialmente de extrema-direita, reforçam-se de eleição para eleição. Marine Le Pen poderá ser a próxima presidente da França. A ultra-direita tem boas hipóteses de chegar ao poder na Áustria. Na Polónia, na Hungria e na Turquia estão no poder os ultra-conservadores. Os povos destes dois últimos países estão submetidos s regimes idênticos aos regimes fascistas dos anos 1930.
Até quando os partidos moderados, na América e na Europa, mantêm as suas políticas actuais, provocando o recrudescimento do populismo reaccionário ou revolucionário? É altura de retomarem o capitalismo de rosto humano, acompanhado dos aspectos sociais herdados dos socialismos.
LEONARD COHEN
Recentemente, faleceu o conhecido cantor e poeta canadiano Leonard Cohen.
Compôs belíssimos poemas e canções sobre o amor, a necessidade de um mundo equilibrado e contra as injustiças. Era um cavalheiro dotado de grande generosidade. A cultura, em geral, e a música, em particular, ficaram mais pobres com o seu desaparecimento.
Quando Donald Trump foi eleito para a Casa Branca, recordei e ouvi a canção de Leonard Cohen intitulada “Les partisans”, dedicada à luta dos guerrilheiros “partisans” franceses contra o exército nazi. Há demasiadas semelhanças com esses tempos na actualidade!
MIGUEL VEIGA
Miguel Veiga partiu para sempre. Foi um bom político e um bom advogado, um Homem recto, justo e solidário, devendo-lhe muito o seu Porto e o país.
Foi um dos primeiros militantes do PPD, actual PSD. Sempre se comportou como livre pensador. Foi um forte crítico da governação de Cavaco Silva no seu último mandato como primeiro-ministro, embora mais tarde o apoiasse para a Presidência da República. Sempre combateu as tendências neo-liberais no PSD. Foi um crítico acérrimo do populismo de direita de Santana Lopes e do austericídio de Passos Coelho. Era um verdadeiro social-democrata!
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