Manuel Silva
O povo não quer a direita no poder

A frase que titula o presente texto era uma palavra de ordem da UDP (União Democrática Popular) antes de se fundir, enquanto partido, no Bloco de Esquerda. As recentes sondagens e estudos de opinião demonstram ser verdadeiro esse sentimento na maioria da população.
A coligação PAF venceu as últimas eleições legislativas sem maioria, não chegando aos 40% de votos. Mais de 60% do eleitorado repudiou a sua política nas urnas, o que permitiu a solução apelidada de “geringonça” e o afastamento de Passos Coelho e Paulo Portas do governo.
Na altura, era comum dizer-se que se antes das eleições o PS, o PCP, o PEV e o BE afirmassem coligar-se após as mesmas o resultado eleitoral seria diferente. O PSD e o CDS continuariam a governar com maioria absoluta.
Passado um ano, todas as sondagens apontam para uma vitória do PS e uma clara maioria de esquerda caso houvesse agora eleições, continuando a direita em minoria. As sondagens traduzem o que, como afirmava Marcelo Rebelo de Sousa quando era líder do PSD, o Zé e a Maria dizem na rua. O povo não quer o regresso deste PSD e deste CDS, não quer a direita no poder.
Além de a “geringonça”, apesar de algumas divergências pontuais, se manter coesa, verifica-se uma melhoria nas condições de vida da população, malgrado o colete de forças do famigerado Tratado Orçamental Europeu, o País sairá do procedimento por défice excessivo no final deste ano, ainda que a dívida pública continue a aumentar; o crescimento económico é anémico, mas dificilmente poderia ser de outra maneira com as restrições das regras europeias. Aliás, anémica está, de um modo geral, a economia europeia. Basta comparar o seu crescimento com o dos EUA. Mesmo assim, o desemprego tem baixado em Portugal.
Depois da austeridade (para os mesmos de sempre) de 2011 a 2015, a situação social melhorou, o que justifica a popularidade do governo, da esquerda em geral e de António Costa.
O PSD e o CDS não têm crédito junto da maioria da população, por um lado, pelo descaramento que demonstram quando acusam o governo actual de aumentar impostos e prejudicar a classe média. Após o 25 de Abril, o governo que mais aumentou impostos e fez implodir grande parte da classe média foi o governo Passos – Portas, do qual também fez parte Assunção Cristas. Por outro lado, aqueles partidos não apresentam qualquer projecto futuro, pelo mesmo motivo que não apresentaram um programa digno desse nome aquando das eleições legislativas de 2015. Pretendem continuar a política de austeridade e empobrecimento. É esta a explicação para a baixa popularidade da direita.
Para lá de não possuir soluções, a direita cobre-se também de ridículo quando critica o PS por se preocupar tanto com o défice e não aumentar o investimento público. Mas não foi em nome dessa política que nos 4 anos em que esteve no poder a mesma direita empobreceu o país e os cidadãos? O actual governo mostrou haver alternativa ao austericídio, conciliando os compromissos europeus com recuperação de rendimentos e alguma justiça social, a tal que o neo-liberal Hayek, inspirador de Passos Coelho, dizia “não ser possível nem desejável”. A direita está “preocupada” por não haver greves e manifestações. Quem diria? Como escreveu recentemente na revista “Sábado” o militante do PSD, crítico da sua direcção, Pacheco Pereira,”porque não ocupa a oposição actual as ruas? Não tem causas ou não tem gente para o fazer?”
As recentes sondagens e os factos mostram também que presentemente a bipolarização não é feita a partir do centro, que desapareceu com a direitização e a traição à social-democracia por banda do PSD. Hoje, há uma bipolarização direita/esquerda e a opção popular é claramente pelo lado esquerdo do espectro político.
O PSD só voltará ao poder se ocupar o centro e, a partir daí, conquistar o centro-direita e o centro-esquerda, se fôr novamente um partido social-democrata, inter-classista, defensor da ascenção social conjugada com a igualdade de oportunidades, empenhado no combate à pobreza, e propiciar uma economia assente na qualidade e boa formação profissional e não nos baixos salários. Tem que ser o contrário do que é o partido de Passos Coelho e quem o rodeia.
PS: no artigo publicado no nº anterior, intitulado “o lobista do que está a dar”, afirmava ter Ribeiro Santos sido assassinado, em 1972, no ISEG, actual ISE. A escola da época era o ISE, hoje é que é ISEG. A correcção aqui fica, com pedido de desculpa aos leitores.
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