Manuel Silva

Há 50 anos começava a minha socialização

Tiveram início no presente mês de Setembro as aulas nas escolas do ensino básico e secundário. Noutros tempos, as aulas começavam no mês de Outubro.

Há 50 anos, no dia 7 de Outubro  de 1966, entrava o autor destas linhas para a 1ª classe da então instrução primária. Até essa data, para além dos meus familiares e das pessoas de Negrelos, onde ainda hoje resido, pouco mais gente conhecia e era bastante envergonhado perante desconhecidos.

Naquele tempo era muito reduzido o número de mulheres empregadas, pelo que a minha saudosa mãe e as mães dos meus colegas nos acompanharam à Escola Primária de S. Pedro do Sul.

Quando as nossas mães nos deixaram entregues ao Sr. Prof. Manuel Pereira, excelente pessoa e educador, infelizmente já desaparecido há muitos anos, olhei à minha volta e conhecia uma pequena minoria dos demais alunos, os negrelenses. Estava num “mundo” estranho. Meti a cabeça sob a carteira e chorei.

Tinha começado aí a minha socialização, bem como pouco depois, na catequese. Deixei de ser “bicho de mato” e tornei-me uma criança comunicável. Hoje, com a experiência que levo de vida, concluo ser a escola e a catequese, na altura por nós chamada “doutrina”, para quem a frequenta, o início da socialização e da formação da personalidade do ser humano.

Naquele tempo, o ensino era exigente. Quando se terminava a instrução primária já se tinha uma certa preparação cultural e ensinamentos importantes para a vida futura. Existiam muitas mais crianças pobres que na actualidade. Alguns colegas meus passavam fome. Óptimos alunos não foram além da 4ª classe por falta de condições financeiras dos seus pais. Em 1970, quando terminei a instrução primária, o único estabelecimento de ensino existente em S. Pedro do Sul era o Colégio de S. Tomás de Aquino, cuja frequência custava 330 escudos/mês, o que era uma quantia acessível a não muitas bolsas naquela época.

Apesar das dificuldades acima apontadas, muitos alunos pobres tinham muito bom aproveitamento. Quando frequentava a 4ª classe, foi organizado um passeio dos 3 melhores alunos de cada turma da nossa escola e da escola primária da vila de Castro Daire a Aveiro e às praias próximas desta cidade. Vi o mar pela primeira vez, com 10 anos. A esmagadora maioria dos excursionistas eram pobres ou, quando muito, de classe média baixa. Afirmar que as más condições de vida conduzem fatalmente ao insucesso escolar é pura demagogia e desejo de nivelar o ensino por baixo, como faz o actual ministro da educação. Tal política agrava ainda mais as desigualdades sociais, pois os filhos de gente de posses frequentam boas escolas privadas, das quais saem com melhor formação para enfrentar a vida profissional e obter melhores empregos.

Nos nossos dias, há muitas crianças carentes e algumas residentes em bairros sub-urbanos, onde a violência e a criminalidade são habituais. No entanto, a situação social relativamente aos mais pequenos e também aos adultos é melhor que na segunda metade da década de 60 do século passado. Naquele tempo, os professores batiam nos alunos, com o incentivo dos seus pais, o que estava errado. Hoje, há professores agredidos por alunos e respectivos progenitores, devendo ser tomadas medidas punitivas de tais comportamentos.

Hoje, como sempre, uma boa e exigente formação escolar é um dos factores essenciais para o crescimento da economia, sem o qual não se poderá sair da pobreza e da miséria. Também nesta matéria (há outras) o governo e a “geringonça” estão a caminhar no sentido errado.

No ensino é também fundamental a pedagogia dos professores. Dar aulas numa cidade ou numa aldeia, numa zona calma e estável ou em meios instáveis, a nível familiar, social e económico, não é a mesma coisa. É necessário conhecer bem o meio onde se lecciona, por forma a captar o interesse dos alunos, especialmente os mais problemáticos, para o estudo, pois a capacidade deles não é menor que a dos outros.

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