Manuel Silva
Tratado de Maastricht na origem da crise Europeia
Há vários anos que, em eleições ou referendos, os povos dos países constituintes da União Europeia (UE) têm votado de modo significativo e mesmo maioritário contra os partidos europeístas, especialmente conservadores, democratas-cristãos, sociais-democratas e socialistas, optando pelas posições das forças populistas, especialmente de extrema-direita e extrema-esquerda.
A direita radical encontra-se no poder na Hungria e na Polónia. No primeiro daqueles países vive-se num regime quase fascista. Marine Le Pen poderá vir a ser Presidente da República Francesa. As forças xenófobas têm forte implantação nestas nações, mas também na Grã-Bretanha e nos países nórdicos. Nas últimas eleições gregas, o Syriza, irmão político do Bloco de Esquerda, foi o vencedor. Em Espanha, o Podemos tem uma forte implantação. Nas presidenciais austríacas que se irão repetir poderá ser eleito um presidente de extrema-direita. Aliás, nas eleições agora anuladas, perdeu por muito pouco.
Os britânicos, contra a vontade dos principais partidos e dirigentes políticos, sindicalistas e associações patronais, votaram pela saída do seu país da União, que passou a 27.
Quem diria, após a queda do muro de Berlim, da esmagadora maioria dos regimes comunistas e das ditaduras militares e civis de direita, que tal viria a acontecer no velho continente? Francis Fukuyama dizia termos chegado ao fim da História com a vitória da democracia e do liberalismo. Agora, já reconhece que não tinha razão, tendo até abandonado o movimento neo-conservador americano que tem como guru o ex-maoista Norman Podhoretz. Este, como já tem 86 anos, dificilmente acompanhará o seu ex-camarada português Durão Barroso para a Goldman Sachs…
Quem deve estar a rir-se no cemitério de Highgate é Karl Marx, autor da frase: “a História repete-se, não como tragédia, mas como farsa”. Nas décadas de 20, 30 e 40 do século passado, as forças democráticas de direita e de esquerda eram débeis. Fortes eram os partidos e regimes nazi (na Alemanha), fascistas e comunistas, que desfrutaram de grande apoio popular. A pobreza então vivida e a humilhação dos derrotados na I guerra mundial, com destaque para os alemães, foram os factores na origem daqueles fenómenos políticos e da II grande guerra.
Após 1945, as democracias vencedoras da última guerra não humilharam, mas ajudaram os países vencidos, que também enveredaram pela democracia, e tornaram-se fortes porque desenvolveram económica mas também socialmente a Europa Ocidental, cujo Estado Providência passou a ser o melhor de todos os continentes. Foi essa a razão para as pessoas votarem nos partidos de centro-direita e centro-esquerda e repudiarem os extremismos.
A CEE passou a ser um espaço económico, mas também de solidariedade entre povos, em que os mais ricos ajudavam os mais pobres.
Após o fim do comunismo, ocorreu o grande factor que originou a crise política, económica, social e de valores actualmente vigente na Europa: o Tratado de Maastricht, colete de forças tecnocrático que só prejudicou o crescimento económico, com as naturais consequências sociais. A partir daí, a CEE dá origem à UE, que acabou por se tornar num super-estado.
Os valores da solidariedade e da igualdade entre os povos estão apenas no papel. Na prática, os países grandes e ricos é que mandam e humilham os pequenos e pobres, impondo políticas únicas neo-liberais que empobrecem cada vez mais as sociedades e perseguindo governos que se recusam a segui-las, como é o caso do actual governo português. Para cúmulo, a política está submetida ao poder económico e financeiro, imperando neste último a vigarice e a ladroagem, aquém e além fronteiras.
Por outro lado, nos partidos nacionais e estrangeiros, vê-se imensa mediocridade e falta de visão a longo prazo.
São estes os motivos por que avançam os extremismos e populismos e recuam aqueles que até há pouco tempo eram os grandes partidos. A situação actualmente vivida na Europa tem muitas semelhanças com o que se passou entre as duas guerras mundiais, o que terá consequências bem negativas, talvez mais cedo do que se pensa.
PS: Quando escrevemos ainda não se sabe se Portugal sofrerá sanções pelo facto de, no ano de 2015, o défice ter sido de 3,2%, estando no ano presente abaixo do limite dos 3%. Se o C. E. enveredar por aquele caminho, apelo aos que colocaram bandeiras portuguesas durante o Europeu de futebol a que as mantenham erguidas bem alto, como sinal de protesto e de defesa da nossa soberania.Redação Gazeta da Beira
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