Manuel Silva

Abril continua no coração do povo

Ed653_PovoSegundo vários inquéritos e sondagens realizados recentemente a propósito dos 40 anos da Revolução, o povo português identifica-se maioritariamente com o 25 de Abril, os ideais e os valores que estiveram na sua origem. Não tem também saudades do regime autoritário e anti-democrático então derrubado.

Mesmo entre os jovens e outras pessoas nascidas e crescidas depois de 1974 aquela opinião é maioritária. Sabem pelos seus pais e avós que hoje se vive melhor e há mais oportunidades que no tempo daqueles, desfrutando também de uma sociedade mais aberta e liberal (no aspecto político e nos costumes, pois o liberalismo económico tem representado um retrocesso enorme, especialmente com a ocupação da troika e a actuação dos seus fieis servidores Coelho e Portas). Por outro lado, através do ensino, também constatam que valeu a pena o 25 de Abril.

Alguns nostálgicos da “belle epoque” salazarista utilizam argumentos em sua defesa perfeitamente desastrados. Quando o actual governo adoptou as primeiras medidas destruidoras da economia e empobrecedoras da maioria dos cidadãos, afirmavam que “alguém tinha que pagar as asneiras feitas após o 25 de Abril”. Afinal a dupla Coelho/Portas não vinha só corrigir o despesismo socialista, mas todo o mal iniciado em Abril de 1974. Tínhamos aí o “super homem dotado de vontade  de poder”, como diria o filósofo alemão inspirador de Hitler, Nietzshe, que levaria de vencida a crise. Afinal a dita só se agravou. A incompetência e a ignorância do país real por parte daquela dupla tem provocado muito maus resultados que bem sentimos na pele.

A que asneiras se referem aqueles saudosistas? Às liberdades e direitos conquistados, a nível laboral e sindical? À criação do Serviço Nacional de Saúde? À edificação de escolas, desde o pré-escolar até às universidades? À democratização social do ensino? À construção de estradas alcatroadas onde antes existiam caminhos de cabras? À electrificação de centenas ou milhares de aldeias, algumas das quais se situavam junto das respectivas sedes do concelho? À melhoria do poder de compra da generalidade da população? Por acaso não houve crescimento económico a justificá-la? Ou esse crescimento deveria servir apenas o factor capital?

É claro que nem tudo o que se fez após o 25 de Abril está certo. Exemplos disso são o aventureirismo destruidor do PREC, algum despesismo dos governos do PS, do PSD e do CDS, a corrupção praticada por pessoas ligadas a esses partidos, ou a destruição  de boa parte da agricultura, das pescas e da indústria pesada pelo governo de Cavaco Silva, o qual não soube defender os interesses de Portugal na UE, criando condições para que tivéssemos de comprar tais produtos à Espanha, à França, à Alemanha e a outros países, assim aumentando imenso o endividamento nacional.

Quando é dito ser a crise nacional e internacional consequência de se viver acima das possibilidades, tal é uma enorme falsidade. Porque é que com economias mais frágeis se criou o Estado Social agora em vias de destruição pelos donos do mundo? A crise deve-se, sim, ao abandono da produção e à aposta na economia de casino pelo capitalismo actual, especialmente o alto capitalismo internacional. Mais um efeito nefasto da globalização!

Estes factos são perceptíveis pelo cidadão comum. Daí que continue a acreditar em Abril, enquanto os inimigos daquela madrugada libertadora falam para as paredes.

PS: o antigo ultra-esquerdista Durão Barroso não pára de surpreender. Após uma entrevista à SIC e ao “Expresso”, na qual procurou amarrar o PS ao bloco liberal-conservador a que pertence, criticou o “polícia” Vitor Constâncio por não ter apanhado os indiciados vigaristas do BPN, abstendo-se de fazer o mesmo  relativamente a estes, o que se compreende, pois os  principais foram seus colegas de governo, veio agora dizer que apesar dos aspectos anti-democráticos do ensino no tempo da ditadura, o mesmo se pautava pela exigência.

Eu fui aluno da 1ª classe ao antigo 4º ano (8º ano actual) antes do 25 de Abril. É um facto que se aprendia e se obtinha uma boa formação. Só que, poucos alunos tinham acesso ao ensino pós-primário, como então era designado o ensino da 1ª à 4ª classe, e pouquíssimos à universidade. Compare-se a percentagem de jovens que completam o secundário ou o ensino superior com os números dessa época. Uma sociedade de exigência pressupõe também igualdade de oportunidades para todos.

Será que Durão Barroso ainda se recorda do contestatário que foi daquele ensino? Terá esquecido que um seu ex-camarada, Ribeiro Santos, foi assassinado pela PIDE no actual ISEG? Devem ser lembranças incómodas para quem sonha com voos cada vez mais altos no sistema que tanto combateu…Redação Gazeta da Beira

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