Manuel Silva
As novas oportunidades do actual governo
A fuga de cidadãos da Síria, da Líbia e de outros países daquela região, que tornou o Mediterrâneo num cemitério, é uma das mais gravosas consequências da política externa criminosa – é o termo apropriado – dos governos ocidentais relativamente aos países árabes.
O apoio às chamadas primaveras árabes, que conduziram ao poder fundamentalistas islâmicos, a guerra baseada numa mentira contra o Iraque e a política desastrosa no Afeganistão pós-taliban, estão na origem do Estado Islâmico, que, com a sua bárbara actuação, tem provocado aquela fuga.
s fotografias de uma criança muito pequena morta numa praia e posteriormente recolhida por um soldado turco, além de provocarem tristeza e revolta, deveriam roer a consciência dos governantes americanos e europeus do Partido Popular Europeu (PPE), bem como do Partido Socialista Europeu (PSE), pois todos alinharam pelo mesmo diapasão na desastrosa actuação nos países de onde provêm os refugiados.
Recentemente, na Universidade de Verão da JSD, o intelectual e ministro Miguel Poiares Maduro, após umas declarações sobre a necessidade de solidariedade e humanismo para com os refugiados, afirmou deverem os mesmos ser vistos como uma oportunidade para o crescimento económico. Só faltou falar acerca de outra necessidade, essa sim, sentida pelo governo: contribuírem para baixar os custos do trabalho.
Uma das teclas mais batidas pelo governo da coligação PSD-CDS tem sido precisamente o corte nos custos do trabalho, o que tem significado, na prática, baixar salários, cortar regalias históricas dos trabalhadores, despedimentos, aumento e diminuição, respectivamente, da fatia do capital e da fatia do trabalho no rendimento nacional, agravando as desigualdades sociais, tal como tem acontecido em todos os países onde são aplicadas políticas económicas liberais. É, aliás, curioso, falar o governo de crescimento económico no presente e no futuro, mas não referir dever ser correlativo ao mesmo o crescimento dos salários.
A coligação PSD-CDS vai, não haja dúvida, caso vença as próximas eleições legislativas, apostar na mão de obra barata para atrair investimento, e não na mão de obra qualificada e uma eficaz formação profissional. Certamente, Poiares Maduro, quando falou na oportunidade gerada pelos refugiados para o crescimento, não estaria a pensar no pagamento de salários decentes aos mesmos, mas ainda menores que os recebidos pelos trabalhadores portugueses nas profissões mais mal remuneradas.
Seria óptimo que a coligação governamental, no próximo dia 4 de Outubro, fizesse PAF!Redação Gazeta da Beira
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