Manuel Silva

A ACTUALIDADE DE FOTOS DO MESTRE EDGAR VASCONCELOS

Durante as recentes festas da cidade de S. Pedro do Sul decorreu uma exposição de trabalhos fotográficos do Sr. Edgar Vasconcelos no espaço onde funcionou o café de que foi proprietário, o “Café Edgar”.

Ali estava retratada a vida da nossa terra e das nossas gentes há várias décadas. A fotografia que mais me sensibilizou foi a de duas crianças, um rapaz e uma menina, com as roupas e os corpos sujos e um olhar suplicante, provavelmente na direcção do saudoso Sr.

Edgar Vasconcelos. A miséria estava estampada nos seus rostos.

Segundo informação prestada pelo filho do homenageado, Sr.

Eng. José Vasconcelos, aquela foto seria do pós-segunda guerra mundial, época em que se viveu muita fome e miséria na nossa região.

A minha saudosa mãe, naquele tempo aluna da então chamada escola primária, contou-me por diversas vezes que colegas seus – não foi o seu caso, felizmente – iam para a escola descalços, de inverno, ao frio, à chuva e à geada. Urinavam nas buracas onde se jogava a “buraquinha” e procuravam aquecer os pés na urina que vertiam.

No meu tempo da “primária”, entre 1966 e 1970, a situação das crianças era um pouco melhor, mas ainda havia muita pobreza e fome entre colegas meus. Destes, houve bons alunos que ficaram pela quarta classe por não terem possibilidade de irem mais além. Ah, mas tínhamos um dos maiores tesouros mundiais  e, já na altura, se afirmava estarem os cofres cheios.

Não posso, a propósito, deixar de contar  uma “estória” de que fui protagonista ainda antes de aprender as primeiras letras, ocorrida há cerca de 50 anos. Uma senhora, que vivia mal, andava, com a minha família, a efectuar trabalho agrícola em terras nossas. Tinha uma filha, que infelizmente faleceu pouco depois, com apenas 5 anos de idade, vítima da miséria.

Aquela menina era mais nova que eu um ano. Enquanto os mais velhos trabalhavam, eu e ela brincávamos. Surge uma desavença típica de crianças entre nós e dei-lhe uma bofetada, ficando a pequena a chorar bastante. Ainda hoje e principalmente porque ela morreu em consequência da miséria em que vivia, sinto remorsos por lhe ter batido. A minha mãe, ao vê-la chorar, perguntou-lhe o que tinha, ao que ela respondeu que eu lhe batera. Logo, a minha mãe dá-me, com toda a razão, um estalo e diz-me: “não se bate a menina. Não se faz pouco dos pobrezinhos”.

Esta última expressão calou-me, ainda que criança, bem fundo.

Mais tarde, quando cresci, todos aqueles acontecimentos ajudaram a moldar a minha maneira de estar na vida e a minha consciência política. Apesar das minhas várias “nuances” na actividade política, sempre procurei estar, em partidos ou fora dos mesmos, como acontece hoje, ao lado dos mais pobres, desfavorecidos e humilhados da sociedade.

Fazer estas afirmações implicará ser considerado perigoso revolucionário. Sê-lo-á também recordar aos actuais chefes do PSD e do CDS que Sá Carneiro afirmava a sua preocupação com os velhos sem presente e os jovens sem futuro, camadas da população desprezadas pelo poder político nacional e europeu, com o imperialismo alemão à cabeça.

Os cortes nas pensões, um terço da população jovem desempregada, 400

000 portugueses, a esmagadora maioria com menos de 30 anos, emigrados nos últimos 4 anos, licenciados em empregos precários, a ganhar 500,00 euros ou pouco mais mensalmente, são a prova desse desprezo por parte dos governantes hipócritas, com especial destaque para Passos Coelho, os quais têm o desplante de afirmar irem reduzir as desigualdades.

Como cantava Sérgio Godinho, há 40 anos, “cuidado com as imitações”. Lembram-se de estes tipos ganharem as eleições em 2011, afirmando não cortar subsídios de férias, não cortar pensões, não despedir funcionários públicos e terem feito precisamente o contrário?

Hoje, há novamente muitas crianças a passar fome e outras necessidades  no nosso país. Segundo a srª swapp, perdão, srª Ministra das Finanças, os cofres estão novamente cheios. Se não vivêssemos ainda em democracia e os actuais governantes não fossem bem menos cultos e inteligentes que o Dr. Salazar, até parecia ter o tempo feito jus a uma antiga canção de António Mourão e andado para trás.Redação Gazeta da Beira

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