Manuel Silva

Animais mais amigos que certos humanos

Consequência do modo de vida dominante

Ed679_p25_amor-de-gatosNa edição de 21 de Junho de 1992 de “Gazeta  da Beira” publiquei um artigo intitulado “Um gato social”, o qual, baseando-se numa antiquíssima canção brasileira que diz “miau, miau, sou um gato social”, ilustrava uma situação de solidariedade entre dois felinos daquela espécie, passada na minha frente, à porta deste jornal.

Um gato, esquelético, sangrando da boca, sem força para miar, agonizava naquele espaço, acabando por vir a morrer junto ao edifício-sede da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. Pedro do Sul. Ao assistir àquele triste acontecimento, outro gato miava aflitivamente e em alta voz, certamente pedindo socorro para o seu semelhante.

A “atitude” do segundo gato impressionou-me de tal maneira que escrevi o artigo de opinião acima dito, comparando-a com a falta de solidariedade já naquela época verificada entre os humanos.

Recordava, aliás, que nessa altura, uma jovem negra, nigeriana, deu à luz uma criança numa rua de Milão, perante a indiferença dos transeuntes.

Naquele tempo também acreditava que o liberalismo político e económico podia ser conjugado com a justiça social e a solidariedade. Mais tarde concluí pela sua incompatibilidade. Como costumo dizer, desiludi-me com duas utopias: a comunista e a liberal, as quais  tiveram efeitos práticos perversos. No entanto, afirmava no mesmo artigo ser o comportamento das pessoas que assistiram ao parto da jovem nigeriana um dos aspectos negativos do liberalismo.

Nos últimos anos, convivi e dei comida a diversos gatos de vizinhos meus. Os seus donos alimentavam-nos devidamente. No entanto, a amizade – é este mesmo o termo – que tinham comigo levava-os a frequentar a minha casa, tendo eu gosto em os tratar bem, incluindo dando-lhes alimentação.

Aqueles animais, na sua irracionalidade, sempre mostraram dedicação e reconhecimento por todos quantos os acarinhavam, donos seus ou não. Desses gatos, morreu recentemente a última, o que me provocou grande tristeza, tal como a morte, há algum tempo, do Eddy, um cão pertencente ao meu amigo Carlos Oliveira, que também era meu amigo.

Esta amizade e solidariedade entre animais domésticos e dos mesmos com as pessoas suas conhecidas cada vez se verifica menos entre os seres humanos, devido à crise que, mais que económica e social, também é de valores. O modo de vida dominante no Ocidente, caracterizado pelo individualismo, o egoísmo, a criação de conflito entre novos e velhos, conduziu ao deslaçamento social. Os responsáveis pela decadência ética e moral a que as sociedades caducas ocidentais chegaram são os arautos do neo-liberalismo, começando em Reagan e Thatcher e acabando na maioria dos governantes actuais, incluindo alguns “socialistas”, como Hollande e Valls, recentemente elogiados pela sua política de empobrecimento da generalidade dos franceses por um intelectual que já teve enormes preocupações com os mais desfavorecidos, Mário Vargas Llosa, num artigo publicado no jornal espanhol “El País”.

No século XVII, Pascal disse: “quanto mais conheço os homens, mais gosto do meu cão”.

No século XIX, Alexandre Herculano afirmou: “quanto mais conheço os homens, mais gosto dos animais”.

Pela minha parte, quanto mais conheço os que mandam no mundo, mas também outras pessoas com quem todos nós nos cruzamos diariamente, mais gosto de cães e gatos.

PS: no artigo que publiquei na edição anterior, por erro, afirmei ter falecido Sá Carneiro em acidente de viação, quando a intenção era escrever “acidente de aviação”. Do lapso, peço desculpa aos nossos leitores.Redação Gazeta da Beira

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