Manuel Silva
VELHOS SEM PRESENTE E JOVENS SEM FUTURO
Portugal é um país onde os velhos não têm presente e os jovens não têm futuro.
Francisco Sá Carneiro
A frase em epígrafe, de Sá Carneiro, ilustra a situação social vivida em Portugal na segunda metade dos anos 70 do século passado. Para ultrapassar tal situação e edificar um Portugal moderno e justo, construiu, com o seu partido (PSD), o CDS, o PPM e os Reformadores, dissidentes do PS, a Aliança Democrática (AD), que teve a adesão de muitas pessoas provindas das esquerdas ou ainda de esquerda, como Vitor Cunha Rego, Pacheco Pereira, António Barreto, Vasco Pulido Valente, Manuel de Lucena ou Medeiros Ferreira, por ser, na época, o único projecto capaz de salvar a democracia e dar esperança aos portugueses.-
Sá Carneiro foi primeiro-ministro apenas durante um ano, após o que faleceu num trágico acidente de viação. As condições de vida dos portugueses melhoraram significativamente neste curto período de tempo.
Passados mais de 30 anos, por acção dos actuais governantes (e não só), que se reclamam da herança de Sá Carneiro e da AD, mas a traíram, transformando o PSD e o CDS de partidos inter-classistas e defensores da justiça social em serventuários do pior do capitalismo, voltámos a ser um país onde os velhos não têm presente e os jovens não têm futuro.
Os nossos jovens, caso não emigrem, espera-os o desemprego que já atinge mais de um terço dos mesmos. Aos velhos cortam-se pensões de reforma, mantendo-se as mínimas em patamares de autêntica miséria, e o acesso a muitos medicamentos.
Atentas as posições assumidas – e estamos em pré-campanha eleitoral – pelos partidos do actual governo e pelo PS, não se espera alguma melhoria da situação.
A maioria governamental mostra-se esgotada e em fim de ciclo.
No entanto, caso continue no poder, cortará ainda mais as pensões, como se prevê no programa enviado para Bruxelas, pelo que as afirmações recentes da ministra das Finanças mais não são do que uma fuga da sua língua para a verdade relativamente ao que espera os mais velhos.
Falam o PSD e o CDS , sem dizer como, da criação de emprego e investimento, o que aliás é dificílimo com a manutenção de impostos elevados e a ausência de investimento público. Não falam, no entanto, de melhoria salarial, demonstrando pretenderem investimento à custa de mão de obra barata e ainda menos direitos dos trabalhadores, aumentando as desigualdades sociais. É isto que significa a famigerada expressão “custos do trabalho”.
A ascenção social característica dos “velhos” PSD e CDS, continua ausente do discurso de Passos e Portas. O que esta gente pretende é uma sociedade dualista, de ricos e pobres, onde a classe média ficará mais reduzida do que já está.
A liberdade de escolha na saúde e na educação já existe.
Porque falam tão enfaticamente na mesma Passos Coelho e Paulo Portas?
Estarão a pensar no cheque-educação e no cheque-saúde, que só na aparência permitem o acesso de todos a qualquer estabelecimento público ou privado prestador daqueles bens essenciais? É que essa “liberdade” também implica o direito de escolha dos estudantes ou doentes por esses estabelecimentos. Os papás ricos quererão ver frequentados os colégios dos seus meninos por crianças e jovens pobres? As grandes clínicas privadas vão aceitar gente pobre misturada com a sua clientela de luxo? Onde esta política mais se aplica é nos EUA. Nas universidades privadas de elite, 9% dos alunos são pobres, cerca de 20% pertencem à classe média e 70% são ricos ou muito ricos.
Quem fez recentemente esta denúncia da “liberdade para escolher” tão do agrado de Reagan, Friedman e uns quantos intelectuais que trocaram “o poder popular”, a “ditadura do proletariado”, “a sociedade sem classes” pelo neo-liberalismo e o neo-conservadorismo, foi Joseph Stiglitz , americano, professor catedrático na Universidade de Columbia e prémio Nobel da economia.
Porque não falam assim Passos e Portas em serviços públicos de qualidade naquelas e em outras áreas? Porque o seu objectivo é a destruição do Estado Social.
O PS, tal como a coligação PSD/CDS, contradizendo o que vinha afirmando, baixa a TSU do patronato para sempre, enquanto a TSU dos trabalhadores baixa temporariamente, voltando a subir para o patamar actual ao fim de 4 anos, estando previstas pensões de reforma muito mais baixas dentro de uma dúzia de anos. Política de relançamento económico que melhore o poder de compra da população e possibilite emprego para os jovens e demais desempregados também não se vê da parte dos “socialistas”.
Com o PSD, o PS e o CDS, os velhos terão ainda um pior presente e o futuro dos jovens será negro. A razão para tal é simples:
o seguidismo face às políticas federalistas, economicistas e sem sensibilidade social da União Europeia, beneficiadoras dos países grandes e/ou ricos e prejudiciais para os pequenos e/ou pobres.
Todos os cidadãos que não se identificam com esta política deverão recusar o voto nos partidos ditos socialista, social-democrata e democrata-cistão (CDS), que abandonaram os seus princípios e valores, e votar em novos partidos ou nos partidos à esquerda do PS já existentes. É o que eu, social-democrata, identificado com os ideais pelos quais se pautou Sá Carneiro, apoiante de Rui Rio, caso se candidate a P.R., vou fazer.Redação Gazeta da Beira
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