Manuel Silva

VOTAR PELA MUDANÇA E NADA MUDAR

As últimas sondagens publicadas na imprensa mostram  uma intenção de voto que determinaria a vitória, por poucos pontos de diferença (menos que nas eleições para o Parlamento Europeu de há um ano), do PS sobre a coligação PSD/CDS. A direita anda pelos 33 ou 34%, ficando em clara minoria no futuro parlamento, enquanto a esquerda obteria uma maioria folgada e expressiva, suplantando os actuais detentores do poder executivo em mais de 20%.

Aquelas sondagens mostram também alguma estabilidade nas intenções de voto no BE e o crescimento da CDU. Por outro lado, o PDR e o Livre estariam representados no parlamento. Os outros partidos extra-parlamentares totalizam quase 10% de apoio entre os inquiridos.

Há cerca de dois anos que todas as sondagens produzem resultados idênticos. Nas eleições autárquicas de 2013 e nas parlamentares europeias de 2014, a direita sofreu derrotas humilhantes. Há uma grande vontade na sociedade em pôr fim a esta política austericida, derrotando os seus autores.

No próximo Outono, a esmagadora maioria do povo português irá, certamente, votar pela mudança. Mas será que uma mudança para melhor irá ocorrer? Não está excluída a hipótese de PSD e CDS obterem uma vitória com sabor a derrota, ou seja, vencerem e ficarem em minoria no parlamento. Não se vê condições para os socialistas ganharem com maioria absoluta. Os partidos à sua esquerda ainda têm força suficiente para impedir que tal aconteça. Que governo teremos lá para o fim do ano? Um governo de bloco central, pois nem a coligação de direita nem o PS terão condições de governar em minoria na situação que Portugal atravessa.  Mais: se, como se prevê, a coligação PSD/CDS perder por pouco, Passos Coelho e Paulo Portas, com o controlo que exercem nos aparelhos dos seus partidos, manter-se-ão na liderança dos mesmos. A única dúvida é se teremos um governo Costa-Passos e até Portas, ou Passos-Portas-Costa.

Haverá fortes pressões das instâncias europeias sobre aqueles dirigentes para se entenderem e encontrarem uma solução governativa continuadora da mesma política de “ajustamento”, acompanhada de alguma pequena mudança, com alguns “remendos e côdeas”, como diz uma canção de José Mário Branco, para o essencial continuar na mesma.

O PSD e o CDS não apresentam nada de inovador. Apesar de todos os sacrifícios que impuseram aos mesmos de sempre, não baixaram o défice aquém dos 3% do PIB, o que já deveria ter acontecido no final de 2013, e a dívida pública já ultrapassa os 130% do mesmo produto, quando, há 4 anos, não chegava aos 100%. A dívida externa ronda  200% do PIB.

O descaramento com que se tenta manipular a opinião pública não consegue disfarçar esta dura realidade, apenas podendo tentar disfarçar a interiorização do sentimento de derrota nas hostes dos partidos do poder.

O PS, apesar de procurar melhorar o consumo dos portugueses, não apresenta um programa coerente de relançamento económico que dê esperança quer a empresários, quer a trabalhadores. A baixa da TSU para os trabalhadores é temporária, sendo posteriormente reposta no actual patamar, baixando as pensões de reforma significativamente em 2026/27. A baixa da TSU para o patronato, essa mantém-se. Em matéria de segurança social, qual a diferença entre o PS e a direita, também defensora de futuros cortes de pensões?  Onde está a necessária e urgente reforma do Estado?

Para sair da crise de finais dos anos 20, princípios dos anos 30 do século passado, os EUA apostaram no investimento público, o qual puxou pela iniciativa privada, enriquecendo novamente o país do Tio Sam. O mesmo se fez na Europa, com o plano Marshall, após a II guerra mundial, tornando este continente próspero, rico e socialmente justo. Após o 25 de Abril, os períodos que registaram maior crescimento económico foram o cavaquismo e o guterrismo. Houve então um enorme incremento do investimento privado, mas o investimento público foi bem superior àquele.

Perante estes exemplos, o que pretende fazer o PS? Não inicia obras públicas até 2020. Por estas e por outras, Passos Coelho afirmou, no dia em que escrevinho estas linhas, sentir-se ultrapassado, em termos de liberalismo, por António Costa. Aliás, o principal autor do programa económico do PS, Mário Centeno, é da escola liberal.

Caro leitor e eleitor:  o seu desejo de mudança é legítimo, mas após as próximas eleições sentirá uma desilusão parecida à daqueles que votaram em Passos Coelho e no PSD, pensando não haver mais cortes nos salários e pensões, nem aumento de impostos.Redação Gazeta da Beira

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