Manuel Silva
Os intelectuais da inevitabilidade
Os intelectuais da inevitabilidade
Vasco Pulido Valente, apesar de afastado das lides político-partidárias há muitos anos e da sua imagem de contestário de tudo e de todos, tem-se destacado, após ter militado na extrema-esquerda, duas vezes na área do PS e mais duas no PSD, pela defesa de posições de direita. Não será excessivo apelidá-lo de “anarca de direita”.
O humor corrosivo é a sua forma de expressão, mas o conteúdo desta identifica-se com a chamada inevitabilidade das políticas de austeridade, destruidoras da classe média, empobrecedoras de quem já é pobre, benéficas para os mais ricos e causadoras do aumento da desigualdade social. Nas suas prosas, que nos lembremos, nunca se mostrou chocado com a perda de direitos sociais pelos trabalhadores ou com o facto de 1% da população mundial ser proprietária de cerca de metade da riqueza do planeta.
Pulido Valente, além de fustigar Tsipras e o Syriza, manifesta-se constantemente a favor das medidas da troika conducentes ao sofrimento do povo grego. Certamente acha natural que os desgraçados desempregados gregos não tenham acesso gratuito à saúde. Aliás, o modelo social europeu causa comichão a este e outros intelectuais apologistas da inevitabilidade da austeridade, como Mário Vargas Llosa, João Carlos Espada e tantos outros.
Aquando das recentes comemorações do 25 de Abril, num dos seus artigos no “Público”, criticava Zeca Afonso, afirmando que nunca percebeu onde estavam os vampiros em Portugal. Comentários para quê? Como vão longe os tempos – mais de 50 anos – em que este então esquerdista, militante do Movimento de Acção Revolucionária (MAR), filho de militantes do PCP, grandes amigos de Álvaro Cunhal, partia tudo na universidade, caso o não segurassem. O meu amigo, infelizmente já desaparecido, José Borges, foi testemunha dessas atitudes.
Outro intelectual, alemão, ex-activista de extrema-esquerda, ligado à organização terrorista Baader-Meinhof, ministro dos Negócios Estrangeiros no governo SPD-Verdes, chefiado por Gerard Schroeder, sendo dirigente daquele último partido, Joshka Fischer, atacou recentemente o governo grego por não querer continuar a política austericida, defendendo abertamente o predomínio do seu país na UE, chegando ao ponto de elogiar a sua adversária Merkel na matéria.
Todos estes intelectuais têm em comum serem dissidentes de partidos comunistas pró-soviéticos ou da extrema-esquerda. Mais que o comunismo, para eles a justiça social também será uma quimera ou “não possível, nem desejável”, como dizia o guru do,liberalismo económico, Hayek. A todos os antigos revolucionários, defensores do modelo dominante, que se encontram ou encontraram a mandar, aplica-se o velho ditado “se queres ver o vilão, põe-lhe o pau na mão”.
Como afirmava Pacheco Pereira em artigo escrito no “Público” do passado dia 2 de Maio, “a austeridade fez mal ao corpo de milhões de pessoas (…) e, ainda que a menos, à cabeça de muita gente”.
Mesmo não constituindo propriamente novidade, uma análise aprofundada das linhas dos programas económicos da coligação PSD-CDS e do PS concluirá serem condicionadas pela inevitabilidade da austeridade.
O PS, ainda que se proponha baixar o IVA na restauração para 13%, repôr os salários na função pública, acabar com contribuições fiscais e sobre pensões em menos tempo que os partidos do governo ou diminuir a carga fiscal sobre o factor trabalho, no essencial não difere da actual política. Sobre os aspectos mais gravosos da legislação laboral, uma melhor distribuição da riqueza produzida, já para não falar na renegociação da dívida pública, o silêncio do projecto de programa económico socialista é significativo…
Se votar na coligação PSD-CDS é apostar na continuidade, a manterem-se estas posições do PS, eleger António Costa primeiro-ministro será escolher a evolução na continuidade, como diria o Professor Marcelo Caetano. Não estamos perante alternativas válidas, mas apenas alternância dentro do modelo vigente e falhado na União Europeia.Redação Gazeta da Beira
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