Manuel Silva

ONDE ESTÃO AGORA OS CHARLIES?

Aquando do ataque assassino de radicais islâmicos ao jornal satírico francês “Charlie Hebdo”, no passado mês de Janeiro, a que se seguiram mais alguns homicídios perpetrados pelos mesmos autores na zona de Paris, em toda a parte ocorreram manifestações de repúdio por aqueles actos vis. A palavra de ordem mais ouvida era “je suis Charlie”. Perante a correcção política então vivida era perigoso em França alguém afirmar “je ne suis pas Charlie”.

Numa tarde de domingo decorreu na capital francesa uma enormíssima manifestação contra aqueles atentados, na qual participaram diversos chefes de Estado e de governo de vários países ocidentais e não só.

Posteriormente, em países de forte influência muçulmana, têm sido chacinados centenas de cristãos. Jiahdistas mataram cristãos coptas egípcios apenas por murmurarem o nome de Jesus. Em muitos daqueles países, numa imitação das práticas nazis relativamente aos judeus, é colocado um N, significando nazareno, nas casas dos cristãos. Na Páscoa, o Papa Francisco chamou a atenção para a gravidade desta situação.

Porque não há agora manifestações de repúdio por estes crimes contra os cristãos? A vida de pessoas ateias e que ofendiam todas as religiões – tinham todo o direito de o fazer – valerá mais que as dos seguidores, no mundo árabe, das religiões maioritárias no Ocidente? Porque ficam calados os responsáveis políticos e governamentais do mesmo  Ocidente, especialmente os europeus que saíram à rua na tarde de Janeiro, acima mencionada, em Paris? A resposta a  esta última questão só pode ser uma: o que fez estas damas e cavalheiros manifestarem-se foi a má consciência de terem alimentado o fundamentalismo islâmico com os apoios concedidos a Bin Laden no Afeganistão, Saddam Hussein na guerra com o Irão, e às chamadas primaveras árabes que, à excepção da Tunísia, conduziram à chegada ao poder de radicais político-religiosos como no Egipto ou à criação de estados falhados (Líbia) e corruptos (Afeganistão e Iraque). Esta geoestratégia está em grande parte na origem da força da Al Qaeda e do Estado Islâmico.

 

MARIANO GAGO

Faleceu recentemente o cientista e ex-ministro do Ensino Superior e da Ciência, Mariano Gago.

Profissionalmente, foi um destacado físico. Como ministro, efectuou um excelente trabalho no Ensino Superior e muito especialmente no desenvolvimento científico do país, em boa parte posto em causa pelas políticas austeritárias do actual governo, e em particular, pelo seu ex-camarada na UDP, Nuno Crato.

Mariano Gago iniciou a sua actividade política no movimento estudantil no  final dos anos 60 do século passado. Era, na altura, presidente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico. Ideologicamente, como muitos jovens da sua geração, identificava-se então com o maoismo, tendo pertencido aos Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas (CCRML), uma das organizações criadoras, após o 25 de Abril, da União Democrática Popular (UDP), na qual também militou.

Há cerca de 30 anos, após ter rompido com a extrema-esquerda, foi um dos fundadores, a maioria dos quais provenientes da sua antiga área política, do Clube da Esquerda Liberal, aderindo mais tarde ao PS, a que se manteve ligado até à sua morte.

Mariano Gago militou na extrema-esquerda por idealismo e sentido de justiça social. Após a desilusão com os dogmas em que acreditou, manteve sempre a vontade de realizar a justiça conjugada com a democracia parlamentar e o pluralismo político. O mesmo não se poderá dizer de alguns que, após terem sido comunistas, se identificam com o pior do capitalismo, plasmado no modelo hoje dominante.Redação Gazeta da Beira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.