Manuel Silva
O conceito de dignidade destes cavalheiros
O presidente da Comissão Europeia (CE), Jean Claude Juncker, tem exercido as suas funções com consciência e acção sociais nunca visíveis no seu antecessor, que não se move propriamente por ideias e valores, mas por tacticismo e interesse pessoal. Recentemente, Juncker afirmou ter a troika ofendido a dignidade dos países sujeitos a “ajustamento”: Portugal, Grécia e, em parte, a Irlanda.
Nos últimos meses, as instituições comunitárias têm tomado decisões a que o governo português sempre se opôs, como a compra de dívida pública pelo BCE e o aumento do investimento deliberado pela Comissão, pois têm-se apercebido que as políticas de austeridade falharam. Agora, Juncker reconhece a ofensa causada pelo austericídio (é mesmo este o termo apropriado) aplicado aos países com défices e dívidas elevados.
O governo português, em vez de aproveitar as palavras do presidente da CE no sentido de procurar aligeirar as duras medidas aplicadas no nosso país nos últimos anos, certamente para mostrar bons serviços a Merkel e Schauble, considerou infelizes aquelas afirmações, pois “a dignidade dos portugueses não foi atingida”.
Para estes cavalheiros que ainda (des)governam Portugal, a defesa da nossa dignidade passa por cortar salários e pensões, incluindo aos pobres, provocar desemprego, falências e a emigração forçada de imensos jovens, destruir a classe média, criar uma bipolarização social ricos/pobres, atacar o Estado Social, o que é comprovado com o abandono do ensino superior por alunos pobres ou com as mortes recentes nas urgências dos hospitais, devido aos cortes cegos e desumanos.
A nossa dignidade, para os nossos governantes, passa também pela exibição, num acto de pura vassalagem, da srª ministra das Finanças como troféu do “sucesso” da austeridade pelo seu colega alemão. Apesar de todos os sacrifícios por que temos passado, o défice está bem acima dos 3% em que, segundo o memorando acordado com a troka, deveria estar no final de 2013, a dívida pública não pára de aumentar, atingindo, no final de 2014, 128,7% do PIB (A Irlanda, outro caso de “sucesso” tem uma dívida de 130% do PIB e uma taxa de desemprego de cerca de 15% da população activa. Antes do “ajustamento”, vivia-se neste país uma situação de quase pleno emprego). Que sucesso é este? Estes factos não serão suficientes para o governo português reconhecer a razão a Jean Claude Juncker?
Mais do que a dignidade, a inteligência dos portugueses tem sido agredida por Passos Coelho, fazendo o contrário do prometido na campanha que o conduziu ao poder, tendo sido alvo de vários processos por atrasos na entrega de declarações fiscais, ou dizendo ignorar que entre 1999 e 2004 os trabalhadores independentes eram obrigados a proceder a descontos para a segurança social. Não é este cavalheiro que prega moral acerca do cumprimento daquelas obrigações pelas cidadãs e pelos cidadãos portugueses?
Um outro cavalheiro da escola liberal, João Carlos Espada, afirmava em artigo recente no “Público” ter a primeira guerra mundial colocado fim a um século de paz e crescimento económico na Europa. Nessa altura, o crescimento económico provocou uma enorme concentração de riqueza numa minoria de pessoas, pobreza e miséria entre os assalariados, que trabalhavam 12 e 14 horas por dia, recebendo baixíssimos ordenados, sem qualquer protecção social e sujeitos a repressão policial às ordens dos governos e do capitalismo selvagem. A paz a que este senhor se refere é a paz pôdre, a paz dos cemitérios.
O Professor Espada, em outros tempos deixou-se cegar pelas ideias de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao e Enver Hodxa. Presentemente, a cegueira ideológica liberal impede-o de ver estas realidades passadas, bem como as presentes.
PS: O líder da oposição russa, Boris Nemtsov, foi recentemente assassinado em Moscovo. Os governantes ocidentais logo insinuaram ter tal crime sido obra de Putin e da sua corte, o que não está provado. Mais procuraram apresentar Nemtsov como um democrata. Tal é falso. Foi o ministro encarregado de proceder às privatizações pelo governo mais corrupto e pouco ou nada democrático da época de Ieltsin. As privatizações então efectuadas na Rússia beneficiaram e criaram uma nova oligarquia mafiosa. Nemtsov foi acusado de corrupção passiva e era odiado pelo povo russo. Com opositores destes Putin bem poderia acabar com a autocracia e instaurar uma democracia a sério, pois venceria novas eleições. O Ocidente continua a apostar em pessoas erradas, como fez relativamente aos talibãs, a Bin Laden ou a Saddam Hussein noutros tempos. Aqui, já não se trata de cegueira nem ingenuidade, mas ignorância ou mesmo estupidez.
Redação Gazeta da Beira
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