Manuel Silva

Faleceu Manuel de Lucena

Ed671_ManuelLucenaFaleceu no dia em que completava 77 anos de idade (7 de Fevereiro) Manuel de Lucena, um dos maiores intelectuais, historiadores e cientistas sociais portugueses da segunda metade do século XX e do século XXI.

Também foi um activista político antes do 25 de Abril. Após aquela data pouca intervenção teve nesse campo.

Filho de um militar de direita, o jovem Manuel de Lucena começou por ser monárquico e salazarista. No entanto, após a sua chegada à Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Direito, tornou-se republicano e de esquerda cristã, militando na Juventude Universitária Católica (JUC). Posteriormente abandonou a religião e tornou-se um dos primeiros militantes da extrema-esquerda a partir de 1963.

No início dos anos 60 foi um dos fundadores da revista “O Tempo e o Modo”, um periódico católico, defensor da democracia e da liberdade, que mais tarde se tornaria no órgão teórico do MRPP. Foi um dos maiores activistas do movimento associativo estudantil nessa época e um dos mais destacados dirigentes na crise académica de 1962, tendo sido o redactor dos comunicados então emitidos pelos estudantes revoltados contra o regime de Salazar e defensores de um ensino democrático e ao serviço de todos.

Há muitos anos, Manuel de Lucena afirmou que um dos factores na origem da sua viragem à esquerda foi ter constatado que pôde estudar na universidade por ser descendente de gente rica, caso contrário, dificilmente o faria.

Entre 1963 e 1968, foi, a par de Jorge Sampaio, Vasco Pulido Valente, João Cravinho, entre  outros, dirigente do Movimento de Acção Revolucionária (MAR), tendo ainda pertencido à Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), sediada em Argel e liderada por Humberto Delgado, a qual integrava aquela organização. Dentro da FPLN, com os maoistas do CMLP/FAP (Comité Marxista-Leninista Português/Frente de Acção Popular), dissidentes do PCP, e maoistas independentes como Vitor Cunha Rego,  defendeu as posições  mais esquerdistas, que apontavam para a luta armada.

Após o fim do MAR em 1968, Lucena ainda passou pela LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária), presidida por Palma Inácio.

Recusou fazer a guerra colonial, tendo partido para o exílio na Itália após a conclusão do curso de Direito. Passaria pela Argélia, a França e a Suíça. Nos primeiros anos da década de 70 foi um dos redactores da revista teórica de extrema-esquerda “Polémica”, dirigida por António Barreto, na qual escreviam ex-dirigentes estudantis como Carlos Almeida, Medeiros Ferreira e Eurico Figueiredo.

A revolução do 25 de Abril apanha Manuel de Lucena em ruptura com o ultra-esquerdismo. O falhanço do Maio de 1968 foi crucial para esta sua mudança. O mesmo tinham feito ou viriam a fazer pouco depois outros activistas de extrema-esquerda como António Barreto, Vasco Pulido Valente, Silva Marques ou Eurico Figueiredo.

No regresso do exílio, Manuel de Lucena cumpriu o serviço militar em Cabo Verde. Durante o PREC assume posições de esquerda moderada, tendo apoiado o Documento dos Nove, também chamado “Documento Melo Antunes”.

Apesar de ter recusado participar na guerra colonial, Lucena foi um crítico da descolonização. Acérrimo defensor da democracia e da liberdade, nunca quis pertencer a qualquer partido ou organização política no actual regime.  Apoiou a Aliança Democrática (AD) e a candidatura presidencial de Soares Carneiro em 1980 por entender que na situação difícil então vivida em Portugal, o projecto de Sá Carneiro, defensor de uma economia aberta (não confundir com liberalismo económico), assente na iniciativa privada, mas regulada pelo Estado, o qual deveria permanecer em sectores estratégicos da mesma, conjugada com uma forte componente social e o combate à pobreza, era o único projecto capaz de salvar a democracia.

Após a morte de Sá Carneiro afastou-se da actividade política, apenas tendo apoiado, em eleições presidenciais, o seu amigo de juventude Jorge Sampaio.

Nas entrevistas que dava, bem como nos artigos e livros que escreveu, Manuel de Lucena demonstrava continuar na linha do projecto sá carneirista, adaptado aos novos tempos, não participando, no entanto, em qualquer actividade, dado os chamados partidos do arco da governação se terem tornado autênticos ninhos de mediocridades, aparelhismo e oportunismo de toda a espécie.

Enquanto historiador, Manuel de Lucena debruçou-se especialmente sobre o período salazarista. Desenvolveu também um profícuo trabalho no Instituto de Ciências Sociais.

Como diria o intelectual espanhol Miguel de Unamuno, Manuel de Lucena foi “todo um Homem”. Faz falta à cultura portuguesa. Fica a sua obra e a sua luta em circunstâncias por vezes bastante difíceis como exemplo de alguém que deu muito ao seu país, nada pedindo em troca. Coisa rara nestes dias sombrios…Redação Gazeta da Beira

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