Manuel Silva

Não basta afirmar “je suis charlie”

Uma opinião politicamente incorrecta

Ed669_charlieSegundo a OXFAM (Comité de Oxford de Combate à Fome), uma organização não governamental e humanista representada em mais de 100 países, em 2009, 1% da população mundial detinha 44% da riqueza do planeta. Em 2014, a mesma percentagem de pessoas já possuía 48% da mesma riqueza, prevendo-se possuir  mais de 49% em 2016.

A distribuição da riqueza tem sido cada vez mais desigual em toda a parte, especialmente entre o capital e o trabalho, nas últimas três décadas, como consequência da globalização, da desregulamentação, da corrupção e outras manifestações das teorias económicas liberais.

No seu discurso sobre o estado da União proferido no passado dia 20 de Janeiro, o presidente dos EUA, Barak Obama,  verberou as desigualdades no mundo e no seu país, tendo proposto baixar os impostos sobre os trabalhadores, as pequenas e médias empresas, e aumentá-los sobre os mais ricos e os altos lucros, tornando a América mais justa e solidária. Mais definiu como prioridades o crescimento do investimento público em infra-estruturas e o aumento de salários  para os empregados. A administração americana concluiu  ter falhado a herança de Reagan e Bush, apostando novamente em políticas Keinesianas.

É tornando mais humanas e solidárias as sociedades que se combatem os extremismos ideológicos e o terrorismo, especialmente o fundamentalista islâmico.

Porque é que os mais recentes assassinatos e atentados do fundamentalismo islâmico como o efectuado contra o jornal satírico francês “Charlie Hebdo” não têm como autores indivíduos  naturais e residentes em países árabes, à semelhança do ataque contra as torres gémeas em Nova Iorque, mas jovens, alguns dos quais possuidores de cursos superiores, nascidos na Europa? Se os seus pais vieram do Magrebe, mas são islâmicos moderados e tolerantes, porque têm os seus filhos comportamentos destes?  A explicação não estará nas consequências das políticas economicistas dos países europeus, tais como  a pobreza nos guetos sub-urbanos, o elevado desemprego juvenil, uma grande ausência de valores e o sucesso a qualquer preço dentro da lógica do “salve-se quem puder”?

A participação da generalidade dos chefes de Estado e de governo  europeus na manifestação realizada em Paris contra os atentados terroristas recentemente ocorridos não passa de pura hipocrisia, pois a sua acção tem levado muita gente, especialmente jovens, ao desespero, sendo presa fácil de movimentos  terroristas messiânicos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. O mesmo se poderá dizer relativamente ao avanço de forças extremistas de direita e de esquerda, bem como populistas e anti-políticos.

O cúmulo da hipocrisia destes senhores está  em tentarem fazer esquecer a sua política seguida no Médio Oriente, a qual tem beneficiado objectivamente o fundamentalismo islâmico. Foi ou não o Ocidente, com os EUA à cabeça, que apoiou  Bin Laden e os talibãs contra a então URSS no Afeganistão? Que apoiou Saddam Hussein na guerra contra o Irão no final da década de 70 do século passado, fechando os olhos à chacina perpetrada pelo seu exército entre os curdos? Que apoiou o chamado  Estado Islâmico contra Assad na Síria? Que desencadeou uma guerra com base numa mentira contra o Iraque, a qual provocou já centenas de milhar de mortos e um Estado falhado e corrupto, à semelhança da Líbia?

Senhores políticos presentes na manifestação parisiense, muitos de vós tendes as mãos sujas de sangue. Não basta dizer “je suis Charlie” e, a seguir, tudo continuar na mesma. Se quereis combater os extremismos e fanatismos políticos e religiosos, ponde os olhos no discurso de Obama sobre o estado da sua Nação.Redação Gazeta da Beira

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