Manuel Silva

O CURIOSO PERCURSO DE UM ESCRITOR REACCIONÁRIO

O escritor peruano Mário Vargas Llosa, na sua juventude, foi um  activo militante do Partido Comunista Peruano. As suas dúvidas face à ideologia e à prática comunistas surgiram na sequência da invasão da então Checoslováquia, em Agosto de 1968, pelas tropas do Pacto de Varsóvia, com a URSS à cabeça, por aquele país seguir uma via democrática e aberta na construção do socialismo e do comunismo.

A edificação da sociedade comunista mostrava-se incompatível com a democracia.

Os jovens intelectuais e estudantes daquele tempo, que eram membros ou simpatizantes dos partidos comunistas pró-soviéticos, saíam, praticamente todos, para a extrema-esquerda. Não foi o caso de Vargas Llosa, que tinha apenas 32 anos.

Disse mais tarde que as ideias do liberal-conservador francês Raymond Aron, especialmente a sua afirmação de que a ideologia marxista era “o ópio dos intelectuais”, o levou a converter-se ao liberalismo político e económico.

Defensor da liberdade e da democracia, tornou-se um homem de direita democrática, mas pouco social. Na década de 1980, apoiou as políticas conservadoras de Ronald Reagan e Margareth Thatcher, que agravaram o fosso entre pobres e ricos nos EUA e no Reino Unido, bem como noutros países onde o neo-liberalismo foi aplicado.

Em 1990, foi candidato a presidente do Perú, com um programa neo-liberal que agravaria ainda mais as condições de vida dos peruanos, metade dos quais viviam na miséria (não era pobreza, era mesmo miséria!). Na segunda volta das presidenciais foi derrotado por um obscuro Alberto Fujimori, de origem japonesa, o qual, em nome da luta contra o terrorismo do Sendero Luminoso e dos Tupac Amaru, estabeleceu uma ditadura militar despótica, corrupta e cleptocrática, sendo por isso condenado, uns anos mais tarde, a 25 anos de prisão.

Se Mário Vargas Llosa tivesse ganho, com a desastrada política neo-liberal inscrita no seu programa, “ajudaria” os senderistas do seu ex-compagnon de route Abimael Guzman, o então célebre “Presidente Gonzalo”, a prosseguir a sua longa marcha iniciada em Maio de 1980.

Um intelectual que tanto fala de liberdade, nos últimos anos, tem assumido posições claramente reaccionárias. Numas eleições presidenciais realizadas no seu país, há uns anos, apoiou o candidato vencedor, da “alt rigt”, Sebastian Pinera.

Nas últimas presidenciais do Perú, após ter chamado (e bem) fascista e corrupta à candidata Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori, pouco antes saída da prisão onde esteve condenada por crimes de corrupção, apoiou-a na segunda volta porque o seu antagonista, Pedro Castillo, eleito presidente, é próximo do marxismo.

Quando Macri foi eleito presidente da Argentina, escreveu no “El Pais”, jornal espanhol, que o seu programa neo-liberal poria fim à corrupção herdada dos peronistas Kirchen (marido e mulher) e desenvolveria o país das pampas. Passado um ano, a Argentina estava à beira da bancarrota e atingia uma inflação elevadíssima, tendo recorrido ao FMI.

A última deste escritor foi o apoio a Bolsonaro, que, no seu entender, é preferível a Lula. Que ambos não são pessoas às quais se compre um carro em segunda mão, é um facto, mas enquanto Lula tirou milhões de pessoas da pobreza e miséria, Bolsonaro aumentou o número de desfavorecidos, fez a triste e reles figura que todos conhecemos durante a covid 19, não sendo excessivo chamá-lo assassino, e identifica-se com a ditadura militar instaurada em 1964.

Ultimamente, na América Latina, os campos estão estremados entre a direita e a esquerda radicais. Quem tem vencido as eleições é a esquerda marxista, devendo-se esta situação à iniquidade do neo-liberalismo de Vargas Llosa e quejandos.

Os seus apelos à liberdade e à democracia caem por terra quando apoia esta estirpe de reaccionários. Lenine dizia que “quando a burguesia vê os seus interesses em jogo, despe a farpela da democracia e assume o seu carácter terrorista”. Quererá o autor da “Cidade e os Cães”, por linhas travessas, dar razão ao mestre que abandonou há mais de 50 anos?

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