Manuel Silva
ACABOU A EXTREMA-ESQUERDA
O governo da geringonça nunca foi um executivo de extrema-esquerda por ter sido apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. Nem estes partidos são de extrema-esquerda, a qual foi e é composta pelos partidos e movimentos à esquerda dos partidos comunistas tradicionais, que sempre qualificaram de “reformistas”, “revisionistas”, “social-fascistas”, entre outros epítetos.
O BE teve origem em antigas organizações trotskistas, maoistas, pró-albanesas, no tempo de Enver Hodxa, e em dissidentes do PCP. Há muitos anos, Francisco Louçã, ainda seu líder, qualificou o BE como partido socialista não revolucionário. Posteriormente, Catarina Martins disse ser aquele partido social-democrata. Não disse qualquer mentira, pois tem muitas semelhanças com os primórdios da social-democracia alemã. As chamadas questões fracturantes compõem o resto do seu “ramalhete” ideológico.
Na década de 70 do século XX, a extrema-esquerda portuguesa era a mais forte da Europa Ocidental. Recordamos que a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho à Presidência da República, em 1976, ultrapassou os 16%, somando mais de 800 000 votos.
Hoje, restam na extrema-esquerda o PCTP/MRPP, com origem no movimento m-l e no maoismo, e o MAS, trotskista.
O MAS (Movimento de Acção Socialista), que teve como cabeça de lista pelo círculo eleitoral de Viseu, nas últimas legislativas, a minha colega de liceu, Fátima Cosme, natural de Vouzela, aparece quando há eleições, eclipsando-se a seguir. O mesmo está a acontecer com o MRPP.
O partido fundado por Arnaldo Matos e adulterado pela sua actual direcção segue o mesmo caminho do MAS. Um amigo meu, que pertenceu ao Comité Central do MRPP, foi testemunha da afirmação do seu líder na noite anterior à sua morte, quando já se encontrava muito mal de saúde, de que com o seu desaparecimento físico, o partido acabaria, pois não via ninguém à altura de prosseguir a longa marcha iniciada no dia 18 de Setembro de 1970.
Os factos posteriores deram-lhe razão. Não tardou, o MRPP esfrangalhava-se em várias fracções. O Comité Central existente aquando do falecimento de Arnaldo Matos foi abandonado por mais de metade dos seus membros.
Aquando do 50º aniversário do partido (18 de Setembro de 2020), os dirigentes restantes, entre os quais pontificavam Cidália Guerreiro, a última companheira do Arnaldo e Luis Júdice, realizaram um conclave a que chamaram de “1º congresso extraordinário”, sendo a sua organização e preparação tipicamente caciquistas.
Como se diz em linguagem popular, “zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades”. Alguns meses depois, Luis Júdice, acusado de plagiar uma tradução iniciada por Arnaldo Matos, foi expulso do partido. Durante o ano de 2021, cerca de metade dos membros do Comité Central desertavam, encontrando-se entre estes dois jovens muito promissores: José Afonso de Lurdes e João Morais.
Com o velho argumento de que as eleições são uma farsa, blá, blá, o MRPP não concorreu às autárquicas de Setembro do último ano, acabando por apresentar listas em Aveiro e Loures apenas.
Nas legislativas do passado mês de Janeiro, aquele partido concorreu em apenas 9 círculos, não se contando entre estes o círculo do Porto. Em todas as legislativas anteriores, desde o 25 de Abril, o MRPP concorreu nos 22 círculos. Mais valia terem ficado quietos, obtiveram uma votação irrisória de pouco mais de 10 000 votos (0,2%). A campanha resumiu-se praticamente aos tempos de antena.
Esta situação mostra a falta de militantes e simpatizantes, bem como uma enorme desorganização. Contrariamente a outros tempos, não se dá pela presença pública do MRPP.
A actual direcção convocou mais um congresso extraordinário para o 1º de Maio deste ano. Bem poderia ser o da sua extinção formal.
31/03/2022

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