Manuel Silva

Se Gorbatchev e a URSS não caíssem

O único dirigente político que, na velha e nova Rússia ou na defunta URSS, governou em democracia, foi o comunista reformista Mikail Gorbatchev, eleito secretário-geral do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) no ano de 1985.

Após o partido ter sido liderado por velhos caquéticos, como Brejnev, Andropov ou Chernenko, Gorbatchev chegava à liderança do PCUS com pouco mais de 50 anos.

Cedo deu sinais reformistas e liberalizantes da sociedade soviética.

Acabou a censura e passou a haver liberdade de expressão, pôs fim ao estatismo burocrático, abrindo a economia à iniciativa privada, acabou com a chamada ditadura do proletariado, que nunca o fôra, os tribunais passaram a ser independentes. As próprias forças armadas tornaram-se autónomas, à semelhança de qualquer sociedade ocidental, acabou com o apoio aos “partidos irmãos”. Foi aí que o PCP acabou com a sua imprensa, especialmente o “Diário”, despedindo os respectivos trabalhadores, mas integrando-os todos em autarquias ou empresas que ainda controlava, como me referiu, à época, um grande amigo e conterrâneo meu (nascido em Negrelos), entretanto já falecido, militante do PCP até ao último sopro de vida.

Com Gorbatchev passou a haver eleições livres e um parlamento a funcionar. O partido único, “de classe”, baseado na disciplina férrea do “centralismo democrático” leninista, acabou.

No Verão de 1991, Gorbatchev propõe a extinção do PCUS e a reconstituição do velho Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), bem como a adesão do mesmo à Internacional Socialista, ou seja, na versão manchevique.

Gorbatchev queria continuar com a URSS, estabelecendo nas várias repúblicas uma autonomia parecida à dos Açores e da Madeira, no nosso país.

Nesse verão, enquanto Gorbatchev passava férias na Crimeia, um grupo de velhos apparatchiks tentava dar um golpe de estado para o derrubar, o qual falhou.

Tratou-se de um golpe muito estranho. Os seus responsáveis, em conferência de imprensa, mostravam-se muito nervosos, o que não é habitual nos comunistas. As suas frases não tinham lá grande sentido. A combatê-los, apareceu Ieltsin, presidente da Rússia, sobre um tanque. Foi o vencedor. Tudo aquilo cheirou a esturro.

Os americanos, em vez de darem todo o apoio a Gorbatchev, pactuaram com Ieltsine, que não perdeu tempo a pôr fim à URSS, criando, com os presidentes das demais repúblicas soviéticas, a independência das mesmas.

Porque os EUA e a NATO não procuraram segurar Gorbatchev e permitiram que um bêbado, abandalhado e corrupto governasse a imensa Rússia? Gorbatchev era um homem honesto. Ieltsine servia perfeitamente o alto capitalismo yankee. O mesmo sucedeu, na altura, em Angola, por exemplo, com os fascínoras e cleptocratas do MPLA.

Como diria Karl Marx, são estas as contradições do capitalismo.

Ieltsin conduziu o país à bancarrota. O ex-agente do KGB, Vladimir Putin, aparece à cabeça do estado russo, sendo “eleito” de forma anti-democrática, matando e prendendo adversários, estabelecendo o controlo e a censura sobre a imprensa e subjugando ainda o poder judicial. Tirou a Rússia da bancarrota, mas foi sempre um ditador sem escrúpulos.

Se Gorbatchev e a URSS não tivessem caído, os fascínoras do Kremlin não estariam a massacrar o povo ucraniano. E o mundo não estaria à beira de uma guerra mundial que poderá acabar com a humanidade. Thank you, americans and ocidental friends…

17/03/2022


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