Manuel Silva

Mãe, partiste há 10 anos, mas continuas presente

Querida mãe, no próximo dia 31 de Dezembro passam 10 anos que partiste. No entanto, estarás sempre presente no meu pensamento e no meu coração. Tu, onde estás, bem o deves saber.

É rara a noite que não sonhe que tu voltaste e estás novamente comigo. Nesses sonhos, interrogo-me sempre: depois de Jesus Cristo ninguém ressuscitou, porquê a minha mãe 2 000 anos depois? Quando acordo, apercebo-me de que não voltas mesmo. Resta a esperança de um dia nos reencontrarmos onde estás. Eu sei que aí não seremos mãe e filho, mas irmãos em Cristo.

Acredito na eternidade, mas o que aí se passa é um mistério. No entanto, penso que quando nos virmos de novo, te abraçarei, beijarei e chamarei mãe. Então, terei a prova de que estava errado quando, no dia 1 de Janeiro de 2012, ao despedir-me de ti, no cemitério, antes de seres sepultada, disse “adeus, minha querida mãe, que não te volto a ver”.

Sempre me tiveste um grande amor e sofreste por mim. Lembro-me de dizeres que quando passou junto à nossa casa o primeiro comboio de jovens soldados a caminho da guerra colonial, provavelmente em 1961, tinha eu 2 anos, choraste muito e disseste “um dia, o meu filho vai passar num comboio destes para a morte”. Boa parte dos que foram não voltaram ou vieram estropiados.

Felizmente, houve o 25 de Abril quando eu tinha 14 anos. Pouco depois a guerra acabou. Como sabes, fui militante anti-colonialista e apoiei todos os movimentos subversivos de soldados e marinheiros contra os embarques. Senti inveja de não estar na tropa e participar nessas lutas.

Também sofreste e muito com a doença e morte do meu pai, tinha eu 9 anos e encontrava-me na 3ª classe, mas fizeste das tripas coração, como ainda cá se diz, em linguagem popular. Arranjaste um emprego. Com muito esforço e trabalho ajudaste-me a estudar e a subir na vida, mas não esqueço que a minha classe de origem é a classe operária. O meu pai e os meus avós paterno e materno foram ferroviários. Estão aí as minhas raízes. Foi um dos motivos que me conduziu aos ímpetos revolucionários por que passei na adolescência e grande parte da juventude, o que provocou grandes dissabores em ti e várias discussões em família.

De criança até à hora da tua morte sempre me ensinaste bons princípios, o que te agradeço.

Recordo os teus últimos dias, na última semana de 2011. Definhavas de dia para dia, devido às várias doenças de que padecias, fruto, certamente, das muitas adversidades que tiveste ao longo da vida. No dia anterior à tua morte, pensei “a minha mãe vai morrer brevemente, tenho que me preparar”. Aí, a minha alma escureceu. Na noite desse dia disseste “Deus nos dê uma boa passagem de ano e um bom dia de ano novo”.

No dia seguinte (passagem de ano), ao levantar-me, encontrei-te morta na tua cama. No dia de ano novo, o teu corpo descia à terra fria onde ficaste na companhia do meu pai, bem como dos teus pais e meus avós. Tudo tinha acabado.

Quando, terminado o teu funeral, um dos maiores de sempre em Negrelos, regressei à nossa casa, é que verdadeiramente me convenci da nova situação que iria viver. Até aí, parecia estar a viver um grande pesadelo. Não era pesadelo, mas triste e negra realidade.

Até, um dia, querida e adorada mãe. Descansa em paz.

30/12/2021


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