Manuel Silva
A falta de credibilidade do Chega
Há pouco mais de um ano, o PS foi o partido mais votado nas eleições regionais dos Açores. No entanto, a esquerda ficou em minoria no parlamento, tendo a segunda força política mais votada, PSD/CDS e outras partidos de direita, formado governo, com o apoio parlamentar do Chega. Ou seja, para alcançar o poder, foi criada uma “geringonça de centro-direita”, à semelhança do que fez António Costa com o PCP e o BE a seguir à eleições legislativas de 2015, ganhas pela coligação do PSD de Passos Coelho e do CDS de Paulo Portas, mas ficando em minoria na AR. O principal derrotado nestas eleições, António Costa, acabou primeiro ministro.
Mal passou um ano, qual menino amuado, André Ventura aconselhou o Chega/Açores a não votar favoravelmente o orçamento para a região porque qualquer um dos candidatos à liderança do PSD exclui o Chega nacional de uma coligação ou acordo de poder, caso vença as próximas eleições.
Quando escrevemos, ainda não é conhecida a reacção do Chega/Açores à sugestão de Ventura.
Há que tirar duas lições desta situação. A mera ambição de chegar ao poder sem princípios e de forma oportunista não compensa. Por outro lado, o Chega não merece confiança. Como podem, aliás, partidos de centro e de direita democrática confiar num partido reaccionário, chauvinista, racista em alguns aspectos, de extrema-direita?
Com Rui Rio ou Paulo Rangel, o PSD, de maneira alguma conseguirá ganhar as próximas legislativas com maioria absoluta. Mais: com o CDS, o IL, o PPM, também não conseguirá. O Chega, companhia indesejável, que saiu reforçado desta crise política, impedirá uma maioria que vá do centro-esquerda à direita moderada.
Embora as sondagens, principalmente após as eleições autárquicas de Setembro passado, tenham perdido credibilidade, relativamente às eleições de 30 de Janeiro, todas apontam para uma vitória folgada do PS e uma maioria PS-PCP-BE. Mesmo que o PSD seja o partido mais votado, a ex-geringonça continuará em maioria, apesar da previsível queda de votação de comunistas e bloquistas.
Provavelmente, tudo ficará como dantes, de nada tendo valido esta crise, que só veio atrasar ainda mais o desenvolvimento do país.
São necessárias reformas na saúde, na segurança social, no sistema fiscal, no ensino, algumas das quais serão difíceis e encontrarão forte contestação. O PS, com PCP e BE, não as conseguirá realizar. À direita do PS, tal será impossível, mesmo que o PSD seja vencedor, pois o filme está visto. Não conseguirá governar.
PSD e PS deverão comprometer-se, independentemente de qual deles ganhe as eleições, a chegarem a um acordo para a aplicação daquelas reformas durante pelo menos 10 anos. O Presidente da República também poderá dar uma ajuda através da sua magistratura de influência.
Na generalidade dos países democráticos europeus, as reformas são efectuadas por mais que um partido com representação parlamentar.
Aprendam os políticos portugueses com estes exemplos vindos dos nossos parceiros da UE.
24/11/2021

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