Manuel Silva
UTOPIA COMUNISTA E UTOPIA LIBERAL
Em entrevista recentemente concedida ao diário “Público”, o deputado do PSD Carlos Abreu Amorim, assumido liberal há muitos anos, afirmou ter deixado de o ser em consequência do que tem observado na comissão parlamentar de inquérito aos acontecimentos registados no BES.
Aquele deputado disse ainda ignorar o liberalismo a natureza humana, também caracterizada pelo egoísmo e a ganância, sendo necessária a existência de um Estado forte e regulador para travar estas tendências.
A utopia comunista vai contra aqueles aspectos da natureza do ser humano da pior forma, impondo a estatização e a colectivização da economia, bem como a submissão do indivíduo ao Estado, na tentativa da criação do “homem novo”, robotizado e manietado pelo poder, anulando qualquer sinal de individualidade. Como houve resistência a esta política, a repressão não se fez esperar, liquidando milhões de seres humanos.
Se esta utopia esmagou as liberdades fundamentais, por outro lado, falhou na economia, tendo criado sociedades pobres e atrasadas a todos os níveis. Daí a sua implosão.
O liberalismo, defendendo a não intervenção do Estado na economia e a sua desregulamentação, bem como a superioridade da “mão invisível do mercado” na organização social, teorizada por Adam Smith, o “pai” do liberalismo económico, no século XVIII, acentuou aqueles aspectos negativos do Homem onde foi aplicado.
As políticas liberais postas em prática por Ronald Reagan, Margareth Thatcher e seus seguidores conduziram ao individualismo egoísta, à corrupção, à vigarice e ao aumento das desigualdades. Em artigo publicado recentemente pelo semanário “Expresso”, o prémio Nobel da economia e professor catedrático na Universidade de Columbia, Joseph Stiglitz, fornecia os seguintes dados: em consequência das políticas seguidas nos EUA nas últimas três décadas, o número de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza constitui 14,5% da população, cerca de 20% da generalidade das crianças são pobres, sendo de aproximadamente 40% a percentagem de crianças negras e hispânicas nessa situação. Nas universidades americanas de elite, 74% dos estudantes são ricos, 9% são pobres. Eis o resultado da tão propalada liberdade para escolher de que falava o guru do reaganismo, Milton Friedman. A América como terra de oportunidades para todos tornou-se uma falácia.
A crise económica, social e de valores que hoje se vive no Ocidente deve-se às políticas neo-liberais, especialmente no tocante à desregulamentação, as quais permitiram as aldrabices verificadas no BES, no BPN, no BPP, ou a falência do Lehman Brothers. Por outras palavras: o liberalismo é outra utopia falhada e falida.
Se o liberalismo e o comunismo, na prática, se revelaram utópicos, qual a alternativa aos mesmos? Poderá haver várias alternativas à direita e à esquerda, as quais terão de aglutinar num denominador comum os seguintes aspectos: a propriedade é um direito, devendo criar-se condições para a existência do maior número possível de proprietários, no entanto, deve ter uma função social e estar ao serviço da comunidade. A afirmação do homem individual e concreto não é nenhum mal, desde que solidário com os outros, como postula a filosofia existencialista. O Estado deve assegurar o direito de todos à educação, à saúde e à segurança social, acentuando o seu carácter regulador e punindo a criminalidade decorrente da soberba e da ganância. Foi o que esquerda e direita democráticas e sociais fizeram desde há muitas décadas, construindo sociedades equilibradas economia e socialmente até ao advento do neo-liberalismo no final dos anos 70/princípio dos anos 80 do século passado.
Durante o ano corrente há uma condição essencial para que assim volte a ser: as eleições a realizar em diversos países europeus, incluindo PortugalRedação Gazeta da Beira
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