Manuel Silva
Recordando outros tempos

Está a terminar o tempo das colheitas. Na nossa região, muito pouco milho e vinho são colhidos. Mais: além do corte da maioria das videiras, as poucas que restam criam uvas essencialmente para comer, ficando a maioria a apodrecer. Pouco vinho se faz. Os agricultores preferem comprá-lo. Quem ainda (poucas pessoas) colhe milho, o mesmo não é para confeccionar a saborosa boroa de outros tempos, quando era rara a família das aldeias e mesmo das vilas que não possuía o seu forno para a cozer, mas para dar de comer aos animais.
Na minha aldeia, Negrelos, nas épocas em que os produtos agrícolas são semeados e plantados ou colhidos, vê-se os campos abandonados.
Já lá vai o tempo em que se faziam as desfolhadas ou cascadelas, como eram mais conhecidas, de milho, nas quais eram cantadas músicas tradicionais, populares e regionais, enquanto se comia e bebia. Cada desfolhada era uma festa!
Outra festa era a colheita do vinho, desde as vindimas até às “pisadelas”, nas quais se bebia vinho e aguardente e, no final das mesmas, se comia o tradicional arroz de frango.
O nosso nível de vida poderia ser pior, mas éramos mais saudáveis e mais felizes. Os alimentos provenientes das nossas terras eram muito melhores e mais saborosos que os comprados actualmente no mercado.
A diminuição da natalidade, a fuga dos poucos jovens existentes nas nossas terras para outras paragens nacionais e estrangeiras, o envelhecimento dos que por cá permanecem, são factores que explicam esta situação, por um lado, mas por outro lado, as políticas da PAC. Inicialmente, incentivava-se o cultivo da terra através de subsídios, muitos dos quais eram aplicados a comprar jipes e até moradias no Algarve!
Posteriormente, a UE pagou para as terras serem abandonadas, tal como fez relativamente à indústria pesada, à pesca e à indústria pesqueira. Os principais meios de construção de riqueza nacionais foram abandonados, lançando milhares de trabalhadores no desemprego e tornando Portugal mais dependente dos países ricos europeus, aos quais passou a comprar tais produtos. Foi aí que começou o nosso endividamento, o qual se repercutiu no défice.
O PSD, o CDS e o PS são os responsáveis por se chegar a esta situação, pois sempre alinharam acriticamente com a UE, esquivando-se a defender o interesse nacional em nome da integração europeia, que aumentou as desigualdades entre os respectivos países.
Portugal tem um crescimento económico medíocre desde o início deste século. O(a) amigo(a) leitor(a), por acaso já reparou que tal coincide com a entrada em vigor do euro, que ficou equivalente ao antigo marco alemão?
28/10/2021

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