Manuel Silva
Morreu ABIMAEL GUZMÁN

No passado dia 11 de Setembro, faleceu numa cadeia subterrânea situada numa base naval próxima de Lima, capital do Perú, Abimael Guzmán, “o Presidente Gonzalo”, “a quarta espada do marxismo-leninismo”, “o maior marxista-leninista vivo”, líder do Partido Comunista do Perú, mais conhecido por Sendero Luminoso.
Raymond Aron, intelectual francês, afirmava, nos anos 1950, que o marxismo, como ideologia, era “o ópio dos intelectuais”. Também nos anos 20, 30 e 40 do século passado, houve brilhantes intelectuais defensores do fascismo, do nazismo e do anti-semitismo, como foram os casos de Ezra Pound, um dos maiores poetas americanos e mundiais de sempre, Louis Ferdinand Céline, Robert de Brasilach, Drieu de la Rochelle, Agustin de Foxá ou Heidegger, considerado por muitos filósofos como o maior entre eles no século XX. Não foi por acaso que Hitler o nomeou reitor da Universidade de Berlim.
Sobre o autor de “Viagem ao fim da noite” e “Morte a crédito” disse Álvaro Cunhal, numa entrevista a Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso, no desaparecido jornal “Independente”, há volta de 30 anos, “Céline era fascista, mas era um grande escritor”.
Abimael Guzmán era filho de gente de classe média. Estudou em escolas católicas peruanas. Licenciou-se em Direito e Filosofia, doutorando-se posteriormente neste último curso, do qual foi professor catedrático na Universidade de Ayacucho. Desde o ensino básico, como agora se diz em Portugal, até ao doutoramento, foi sempre o melhor aluno da sua turma.
Dotado de rara inteligência – a sua tese de doutoramento sobre Kant é considerada uma das melhores análises marxistas sobre o pensamento daquele filósofo – radicalizou-se, do catolicismo progressista passou para o marxismo ateu. Militante do Partido Comunista Peruano, fundado pela figura histórica do comunismo internacional, que foi José Mariatégui, em 1963, aquando do cisma sino-soviético, abandona-o, segue o maoismo e funda o grupo “Bandeira Vermelha”, que em 1970 cria o Partido Comunista do Perú, o Sendero Luminoso, que ficou assim conhecido para se distinguir do partido de que cindiu. Ambos utilizavam a sigla PCP. O partido de Abimael usava em subtítulo “par el Sendero Luminoso (carreiro luminoso) de José Mariatégui”.
Essa radicalização, num país miserável (quando o “Presidente Gonzalo” foi preso, em 1992, metade do Perú vivia na miséria. Leu bem? Não era pobreza, era miséria), em nome da “sociedade sem classes”, levou-o, com os seus camaradas, na primavera de 1980, à luta de guerrilha. Em nome do bem comum, mandou praticar muitos e dolorosos crimes. A guerrilha matou dezenas de milhar de pessoas, muitas à machadada, desfazendo crâneos com pedras e, naturalmente, com armas de fogo. Como dizia Abimael Guzmán, “toda a História é a História da violência entre classes”, inspirando-se na tese de Engels sobre a violência enquanto parteira da História.
Do lado do poder também se praticavam crimes horrendos, prendendo, torturando e matando inúmeras pessoas que, veio a constatar-se, nada tinham a ver com a guerrilha. O ditador e ladrão Alberto Fujimori deu ordens à forças policiais e militares para desmantelarem o Sendero. No dia 12 de Setembro de 1992, Abimael Guzmán e outros dirigentes senderistas eram presos. Em pouco tempo, 90% do Comité Central do PCP estava na cadeia. Seis mil guerrilheiros entregaram-se. Era o fim do Sendero, que ainda pratica mortes, mas numa escala muitíssimo menor.
Com a morte do “Presidente Gonzalo”, o mais certo é desmembrar-se o resto da organização, que, aliás, já se encontra dividida em várias facções.
Voltando a Aron, a “cegueira ideológica” conduz muitos intelectuais a este caminho. A ideologia, seja qual for, deve apenas servir de farol para a acção prática.
PS: Não estou a revelar qualquer segredo. Abimael Guzmán, antes de ser preso, esteve em Portugal e conviveu com pessoas que comungavam ou comungam da sua ideologia.
30/09/2021

Comentários recentes