Manuel Silva

Vargas Llosa quererá dar razão a Lenine, que renegou?

O escritor peruano Mário Vargas Llosa apoiou, na segunda volta das recentes eleições presidenciais do seu país, a candidata de direita radical Kiko Fujimori, filha do ditador e cleptocrata, actualmente a cumprir pena de prisão, Alberto Fujimori, que, à volta de 30 anos, instaurou uma ditadura militar no Perú. Fujimori foi eleito na segunda volta das eleições presidenciais de 1990, precisamente contra Mário Vargas Llosa.

Mário Vargas Llosa foi um intrépido lutador contra a ditadura fujimorista, tendo escrito aquando da prisão do líder do Partido Comunista do Perú, mais conhecido por Sendero Luminoso, Abimael Guzzman, que este merecia um castigo severo, mas ao mesmo tempo condenava as humilhações a que foi sujeito, como aparecer em tronco nú em imagens.

Fujimori demitiu-se do cargo de presidente após ser provado que roubou dinheiros públicos e subornou senadores para votarem num determinado sentido. Entretanto, foi preso e condenado a 25 anos de prisão, sendo encarcerado na mesma cadeia subterrânea onde se encontram os senderistas, mas em outra ala, o que é perfeitamente justificado…

A ditadura caiu, o Perú regressou a um regime democrático, mas de opereta, como são grande parte das “democracias” da América Latina.

Os peruanos depositaram enormes esperanças no presidente eleito após os anos de ditadura, Alejandro Toledo, apoiado por Vargas Llosa, o qual se tornou um corrupto e cleptocrata igual a Fujimori. Dos presidentes que se seguiram, poucos foram os não corruptos, o que permitiu a ressurreição do fujimorismo com a filha do ditador, Keiko Fujimori, que se candidatou várias vezes à presidência do país.

Para que Keiko não fosse eleita, instaurasse nova ditadura e indultasse o seu pai, o prémio Nobel da literatura no ano de 2010 apoiou candidatos de esquerda contra os quais tinha estado, como Alain Garcia (socialista), outro corrupto, que acabou por se suicidar, ou Ollanta Humalla, o Chavez do Perú, que alcançaram vitórias eleitorais.

Nas recentes presidenciais daquele país dos Andes, chegaram à segunda volta a filha do ditador Fujimori e o esquerdista populista Pedro Castillo, o que mostra a desilusão dos peruanos face aos partidos moderados. Keiko Fujimori está a ser investigada por corrupção relacionada com a Odebrecht, tendo estado presa preventivamente durante 6 meses. Filho(a) de peixe sabe nadar…

O ex-comunista convertido ao liberalismo, em nome da liberdade e da democracia, após ter combatido e denunciado os Fujimori, apoiou na segunda volta das presidenciais Keiko, com o pretexto de o Perú não cair “num regime comunista e populista” com a vitória de Pedro Castillo, que aconteceu, com 51% de votos contra 49% da sua adversária, havendo, no entanto, um recurso da candidata de direita, alegando ter havido fraude eleitoral, o qual aguarda decisão judicial.

Mário Vargas Llosa, ao apoiar uma mulher conotada com a alt rigt e suspeita de corrupção, quererá dar razão ao seu ex-mestre, Lenine, quando afirmava “sempre que vê os seus interesses ameaçados, a burguesia despe a capa democrática e passa a exercer a sua ditadura?”.

PS: quando Alberto Fujimori instaurou a ditadura militar, Mário Vargas Llosa renunciou a nacionalidade peruana. Presentemente, tem nacionalidade espanhola.

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